domingo, 10 de fevereiro de 2008

Terapia

- Boa tarde, eu sou doutor Silveira, pelo que li aqui em sua ficha, você é o Paulo, correto?

- Correto, doutor.

- Então, Paulo, por que fazer terapia?

- Eu pensei que você fosse me dizer isto, afinal, não sou eu que recebo por estar aqui...

(Cinco minutos de silêncio)

- Então, o que te atormenta

- Nada.

- Nada?

- Não exatamente.

- Hum.

- Doutor, não sei mais o que fazer. É uma garota. É a garota.

- Fale-me sobre ela.

- É a guria do ônibus, doutor. Ela está me enlouquecendo, doutor, eu não agüento mais.

- Siga...

- Ela parecia ser a coisa mais linda do mundo, aquele sorriso mascarado, escondido, tentando disfarçar, o jeito solto de rir, aquele jeito meigo de se aproximar...

- E por que você não a agüenta mais?

- Doutor, era tudo mentira! Ela é uma ciumenta! Ela tem ciúme das minhas amigas, das minhas primas, até da minha irmã de dois anos ela tem ciúmes!? Encana com o meu futebol de Domingo, não pára de falar que eu a troco pelos meus amigos...

- Bem, o ciúme dela realmente não é normal, mas vocês já tentaram conversar? Com certeza ela tem algumas qualidades também, então será que não seria o caso de tentar contornar esse ciúme todo?

- Sim... Ela tem qualidades. Ela tem um bom gosto musical, nós temos boas conversas, ela cozinha muito bem, se interessa bastante por mim...

- Viu só, não é o fim do mundo!

- Doutor, me escuta, é o fim do mundo sim! Ela é meio doida. Às vezes ela enlouquece e inventa de querer discutir a relação e vive fazendo aquelas perguntas fatais...

- Perguntas fatais?

- Doutor, o senhor é casado?

- Sou.

- Então, não há como você não saber...

- Não?

- Claro que não! Sua esposa já perguntou ao senhor se está gorda? Já encanou alguma vez quando o senhor disse “Meu bem, como você está bonita HOJE”?

- Huuuuum... Sim, entendo. Realmente, são perguntas fatais. Nem gosto de lembrar, ontem à noite a Débora me perguntou o que eu achava da mãe dela passar alguns dias conosco...

- Nossa, doutor, não sabia que o senhor também sofria com isto!?

- Rapaz, todos nós sofremos.

- Então, doutor, a pior parte é a confusão, sabe? Às vezes eu não sei se a odeio, se a amo, o que realmente sinto por essa bendita!?

- Fale mais.

- Quando ela não está perto, eu sinto saudades, sabe, a falta mesmo, a presença dela já faz um marco em minha vida. Mas quando ela chega, ela me enche de ódio, de raiva, fica tirando as coisas do lugar, reclama que o meu quarto está uma zona, que eu deveria levar as roupas para o cesto de roupa suja e não fazer o meu montinho ao lado da cama. Reclama que tem muita coisa na mesa do computador, que eu rabisco os livros... Eu praticamente quero esganá-la e jogá-la pela janela.

- A Débora também faz isto comigo. Eu sei como é. Dá vontade de tapar a boca dela com um pote de formol, para que ela apague por alguns dias, até que esse encosto saía dela.

- É doutor. Mas sabe... Depois isso passa, ela senta na minha frente e abre aquele sorriso e não tem como não me derreter. Eu odeio como ela faz o meu ódio desaparecer, não dá pra ficar bravo com ela; ela simplesmente faz tudo sumir, o céu estava cinza, ela olha lá pra fora e vem um arco-íris.

- Vem cá e como é o nome dela?

- O nome dela? Bem, isso eu não sei.

- Como não sabe?

- Então, doutor, ela existe. Mas tudo isso que eu te falei nunca aconteceu.

- Não?

- É que todo dia eu pegava um ônibus pela manhã, bem cedo. Ela estava lá. E eu a olhava, ela me olhava, mas eu sempre fui muito tímido, então, nunca sentei ao lado dela, nunca tive a coragem de dizer um “oi” sequer, nem jogar aquelas conversas fiadas de “como o tempo está feio hoje”. E agora, nem eu, nem ela pegamos aquele ônibus e eu acho que perdi uma das maiores oportunidades de minha vida.

- Então, o seu problema é frustração...

- Não, doutor. Não sei se o senhor percebeu, mas o meu problema é com a imaginação, um tanto quanto fértil... E alguém que imagina esse tipo de coisa precisa de terapia, não acha?

3 comentários:

Natália disse...

Hahahahha
Meo escrevi 900 linhas, perdi tudo!

E agora?
Vou tentar escrever oq eu me lembro.

Lembro de ter dito que foi o texto mais maluco que eu já li.

Bom, na verdade quero dizer que eu me identifiquei muito com o texto, afinal qual ser humano não gosta de imaginar como seria sua vida se algumas escolhas tivessem sido feitas.

Talvez o garoto do ônibus que eu pegava era pra ser uam das coisas mais incriveis que eu ja tinha vivido. ele tinha um olhar misterioso, um jeito de se comportar, de andar, de passar por mim e não conseguir sentar do meu lado. Mas aquele olhar, falava muito, talvez mais do que uma palavra ou uma frase.

Mas devo dizer que o fato de ter deixado passar não quer dizer que aquela foi a unica e ultima oportunidade de nos conhecermos, a vida tem seus truques.

No final das contas nos conheciamos lá do primario. É, estudamos juntos.
E depois sem querer nos descobrimos, que bom que descobri o Paulo, aquele do ônibus, o Paulo amigo de infancia, escritor, jornalista, o Paulo que eu ainda não conheço muito bem, mas quero muito decobrir.

beijos meu mistério favorito!

Natália disse...

Ps: Talvez a escrita não esteja muito boa, algumas coisas erradas, mas fiquei com preguiça de corrigir depois de ter perdido o texto anterior..

Hahaha

Beijos

bia disse...

Ah entendi, depois comento isso! =)
E sim as aulas do Mack surtiram efeito...que bom né? Afinal tivemos que aguentar o Flávio...que horrorrrrrrrrr!!!! Hahahahahahahahahahaha