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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Só não roube sua ex-mulher

Era uma tarde como outra qualquer, para um desempregado. Meu emprego se foi com a desculpa de sempre; a tal crise econômica, corte de custos, a necessidade de enxugar a folha de pagamento.

Normalmente, perder um emprego não é o fim do mundo. É apenas um saco. São mais preocupações, ansiedades, medos e angústias para colecionar. Até que se encontre um novo emprego para se estressar.

Porém, para alguém que não possuía vinculo empregatício formal – aquelas bobagens que a gente faz para tentar manter seu emprego em uma crise e lhe faz a presa mais fácil na seguinte – ser despedido é como naufragar sozinho no meio do triângulo das bermudas.

Não pensava que, de todos os meus credores, minha ex-mulher seria a mais voraz e cruel. Sem renda, sem seguro desemprego, sem seguro e sem poder pagar a pensão de meus dois filhos. Até a companhia telefônica seria mais compreensível, mas uma ex-esposa não teria piedade.

Tudo bem que a gente faz umas bobagens na vida. Não vou negar que o divórcio foi por minha culpa. Ela tem motivo para estar ressentida, mas não esperava que fosse vingativa.

Engraçado o dia que fui preso. Não fazia idéia do motivo, até que meus carrascos me contaram suas razões. Os arautos da justiça estão atrás do cruel caloteiro das pensões. Afinal, por que correr atrás de quem cometeu um brutal e sanguinolento assassinato, se os terríveis não pagadores de pensão estão a solta!? E eu pensava que o SPC seria meu maior problema…

Não sabia se me indignava ou ria. Era eu tão perigoso para me algemarem? Que risco eu apresentava à sociedade? Qual havia sido meu crime, ser demitido? Minha vontade era chutar o banco do passageiro da viatura. O que de pior poderia me acontecer? Já estava preso por um dos motivos mais ridículos, qual seria o problema de arranjar um de verdade?

Aquelas algemas me irritavam. Eu sempre vi na tevê aqueles bandidos sem rancor algemados. Só de ver alguém de algema eu pensava mal da pessoa. Antes disso, eu pensava que, se estava de algema, o cara estava errado.

Quando antes eu poderia imaginar que por essas bobagens colocariam algemas em cidadãos de bem? Eu sempre paguei meus impostos, nunca cometi crime nenhum. Está bem; ás vezes uma ou outra multa de trânsito, mas isso não é exatamente colocar a vida dos outros em risco, não é?

Ao adentrar a minha cela, senti-me como um cordeiro entregue aos leões. Eu era o almoço após sete dias de jejum.

Por sorte, na delegacia dificilmente eles colocam caras como eu com os homicidas. Claro, os homicidas que eles pegaram cometendo um homicídio. Mas ao meu lado, três rapazes, por volta de 19 anos, que alegavam ser apenas usuários de 900 gramas de cocaína. Porém, ao cair da noite, contavam todos os passos, pontos e lugares para se conseguir drogas. Eu, um pai, um cidadão que nunca havia colocado um cigarro na boca, já sabia como conseguir a droga que quisesse, pelo preço mais barato, com o irmão mais “firmeza”.

Foram três dias até que meu irmão conseguisse regularizar a situação. Se eu fosse patrão, tivesse advogado, tenho certeza, nem teria que dormir na cadeia. Mas a gente faz o que nesse Brasil? Não dá para fazer muito, mas uma coisa eu percebi. Você pode dar calote em qualquer um, desviar verbas públicas e, se for esperto, roubar. Mas não pague sua ex-mulher e… eu garanto; é fatal.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Um grande engano

A vida é um grande engano. Somos dotados da esperança de um porvir confortável, agradável, onde poderemos degustar aquela felicidade utópica de um filme meloso de Hollywood. Buscamos a felicidade em cada esquina, de forma tímida, disfarçadamente involuntária. Esperamos que um(a) estranho(a) que dobre a esquina guarde a formula de nossa felicidade em seu sorriso, desejamos ardentemente que o segundo seguinte venha acompanhado de um êxtase constante e infindo, uma mentira inventada pela nossa necessidade presente de completar o abismo que impera no âmago.


O que falta é uma resposta e a nossa tendência é procurar a solução em outra incompletude. Buscamos algo que encaixe, desesperadamente esperamos que a resposta esteja em um ponto exato, tátil e visível de nossa vida. É a forma mais cômoda e fácil de encarar o assustador vazio, buscar a resposta no vazio de outrem.


Nosso desespero se constrói quando o conto de fadas que construímos se mostra como um castelo de areia frágil que se desfaz com a repentina mudança da maré. A mácula que nos tortura se faz evidente quando nos deparamos com a frustração de espelho. Somos tão defeituosos que a imperfeição é um fato assombroso.


Perdemo-nos em ilusões vãs quando a verdade é que nosso foco está errado. Queremos ignorar a incompletude, queremos fugir da verdade de qualquer forma, mas é inevitável, nossa carne não mente, nosso sangue carrega o vil veneno de ser errante. Nossa sina é seguir desesperadamente de lástima a falhas, torturando nosso peito com esperanças de alegrias falsas que apenas tomam o tempo e intercalam o momento que encaramos a realidade.


A vida é um grande engano, pois queremos ver tudo colorido, queremos cores alegres, queremos música e requinte. Porém a vida não passa de um ciclo eterno, um romper constante, a instabilidade visceral de alegria e tristeza.


Mas a vida não é preto e branco. A vida não passa de um grande engano. A vida é um emaranhado de tons de cinza. Tentando esvair-se da escuridão e atingir seu deslumbramento de pura luz.


Tenro engano. Enquanto nossa busca for incansável por um sorriso perdido, quando nosso dia não for alegre enquanto os pássaros não entrarem pela nossa janela e nos fazerem crer na vida em conto de fadas, a vida não passará de um narcótico.


Narcótico que perpetuará durante o tempo que pulsar no peito a imbecil insistência de beber a ilusão, alcoolizar-se na esperança de não ter que encarar o fato de ser você mesmo. Ninguém gosta de estar tão próximo dos defeitos quanto à pessoa que os comporta, é para ela que eles os são mais evidentes.


Mergulhados em nossa escandalosa podridão, buscamos na imagem de perfeição dos outros a solução para a corrompida estrutura de vida que somos. É uma pena que imaculada imagem construída em nosso âmago seja incapaz de preencher os espaços não-preenchidos de nossas almas disformes. Uma imagem não passa de uma imagem, um reflexo distorcido por uma água turva. Quanto mais próximos, mais claro o reflexo. E quanto mais claro, mais abominável.


Somos insuportáveis. Tão insuportáveis e entregamos aos outros o carma de nos suportar. Se tivermos que nos suportar sozinhos, enlouquecemos. Talvez por isso sejamos tão incompletos.


Meu objetivo não é ser trágico. Nem simplesmente apontar o óbvio de sermos meras personagens construídas que buscam verdades em meras interpretações teatrais de outros que são meramente tão iguais a nós. Meu sorriso de canto está em dizer que ao encarar a incompletude e aceitá-la está a liberdade. A verdade é que há buracos que não precisam ser preenchidos, lacunas são necessárias, para que o tempo demarque a vida sem que desesperadamente tentemos planificá-la, quando viveríamos em verdade se estivéssemos interessados apenas em viver a vida.


Mas preferimos degustar a vida em busca de respostas, significados, verdades, de perfeição; vivemos em busca de algo que pudéssemos admirar. Ledo ardil. A vida não passa de um engano, cheio de incertezas, máculas e inverdades. Nós somos fogo e palha, queimando em nossos atributos como forma de seduzir e destruir o dia de outro alguém.


A vida é um grande engano. E a verdade é que adoramos nos enganar todos os dias. Temos prazer em viver essa pequenas mentiras, gostamos da sensação de torcer para que ela dê certo, mas gostamos da segurança de que não seja eterno, de não estar acorrentado, ligado definitivamente a uma decisão de puro contorno de pueril emoção.


A emoção se vai com o movimento e se perder no tempo, com isso a verdade vem à tona e se desfaz todo o enredo. Perdeu a graça para um. É o trágico fim para outro. É o apego brincando com o desapego, nosso jogo de cenas, num ato final que se desdobra enquanto nossas verdades ainda forem as mais incorretas.


Nós adoramos mentiras. Ainda mais quando são, das mentiras, as mais sinceras.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Abraço

Tateava com os dedos cada frágil espaço de seu lápis amarelo. Amarelo corroído por seus momentos de nervosismo, sua sublime manifestação de ansiedade ao cravar os molares no frágil lápis. Mordia com força, mas apenas para fundar suas presas na vítima sem causá-la maior dano que a mera superficialidade de arrancar-lhe a derme amarela.

Eram cicatrizes das mais belas, seus dentes eram perfeitos, um acerto genético que seus pais não esperavam. Nenhuma cárie, nem a possibilidade de usar aparelho, nem arrancar o juízo fora preciso. Mas essa mania de torturar o lápis era seu provável pecado bucal.

Sem dar-se conta de seu potencial devastador. Mal sabia ela que entortava pescoços ao roçar o bendito lápis ao lábio, lábio que era mais que desejado, lábio que atiçava e cativava, atordoando o sonhador mais acordado.

Seus pés marcavam o ritmo de uma canção qualquer que ouvira na rádio e pensará ser do tempo de seu pai. Era tão retro, porém simultaneamente instigante. Era o passado rugindo a sua realidade com palavras de um morto instante mui distante. “E se a dor é de saudade, e a saudade é de matar, em meu peito a novidade vai enfim me libertar!”

A aula era muito chata. O tempo não passava. Sua impaciência balbuciava seu mais digno tique, enlaçava duas mechas de cabelo com o indicador, mecanicamente. Seu olhar era reto e profundo, sua testa ligeiramente franzida mostrava a ligeira tensão que tomava seus pensamentos. O olhar era gélido, fixado num ponto vazio que ela em si não via.

O tempo a tomava por lembranças perdidas de quem se fora há pouco tempo. A dor da saudade matava, a dor da saudade era de morte. Sucumbia entre as fotos daquele que não voltaria; aquele que a fizera e sem avisar, fora embora sem uma sincera despedida. Seu coração só a ferida sentida, o pulsar tornava a dor mais evidente. Estar vivo só torna a dor que sentia ainda mais latente.

Quantos sonhos sonhara em seu colo? Quão alto fora levantada por seus braços? Via-se agora sem seu mais firme logro, via-se sem seu paterno laço. Despencaria do alto? Capaz seria de se levantar? O pó que arde é o da queda ao rosto e não o dos pés por em caminho pueril der dados aos pés compasso.

Seu anseio era por um caloroso afago. Seus olhos denunciavam o coração me pedaços, por tão cabisbaixos. Mas a solidão arma, a solidão assusta e quem mais precisa do afago é aquele que a ajuda recusa.

Ao perceber a desolação, alguém lhe pergunta, tudo bem?

Tudo. E fim. A mentira sincera da educação, onde se pergunta aquilo que a resposta não se quer ouvir e se a resposta for a de quem não quer falar, o jogo de vida de maneira perfeita acontecera.
E engolira o trêmulo. Fingira nada haver, fingira quem fora pouco ser, fingira o sorriso mais falso, fingira que fingira. Era tal falsa que a alegria soava apatia.

A esperança era vaga. Precisava de um milagre, precisava de insistência, precisava de alguém que a sacudisse o dissesse que não estava bem, estava em cacos, a dor a acometia de lado a lado, seu rosto era a transfiguração de quem não suportava o próprio fardo. Precisava que dissessem o que ela e todos já sabiam, precisava ouvir as palavras de tudo aquilo que todos nós já imaginávamos, mas desejo de dizer por ser tão cômodo deixar alguém se atormentar com uma angustia que ali não deveria estar.

A novidade fora o abraço. Descompromissado, inesperado e devastador. Está tudo bem, isso vai passar. E as lágrimas dela vêm ao ouvir as palavras de alguém que ela nem imaginava que a queria bem.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Sonhos

Apenas para descontrair.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Leite Parmalat

Todas as verdades estão contaminadas. Todas as palavras estão perdidas em discursos vagos, direcionadas a corações imprecisos que se prendem a qualquer frase como naufrago se amarra a uma garrafa vazia de um bom falerno boiando ao seu dorso.


Nossas esperanças estão vendidas a velhos emergentes que enriqueceram com as falhas de ontem. Nossas crenças estão cerceadas por vontades mercadológicas, nossa alegria está condicionada a letras digitadas por um roteirista qualquer do outro hemisfério. Em qualquer prateleira se vê felicidade de plástico.


Nossos dias são sentados, muito bem acomodados, poltronas especialmente desenvolvidas, para aquela sua dor na segunda ou terceira vértebra, massagem para a tensão escondida de ter traído quem mais o ama, como se o amor não passasse de uma mera convenção mal estabelecida entre duas pessoas que se toparam e tiveram libido, por isto, condenadas estão a ter que aturar a outra existência, apenas para ter um maldito alívio.


De todas as nossas tolerâncias, o mesmo veneno ácido. Os dias se vão e se montam os próximos exatamente com o mesmo desenho flácido. O tempo voa e vai cada vez mais rápido, são pessoas correndo, em filas duplas, engarrafamentos praticamente estacionados.


E enquanto tudo isso se faz, as vacas nunca se cansam de ruminar o de que sobrou de ontem pasto.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Solidão

Apenas sente o vazio aquele que se encontra ao ermo. O meu desamparo não se encontra em mim. A solidão não é efeito do que fica, mas é fruto da ausência de quem vai.

O que demarca o espaço, a lacuna é um vácuo, um vazio. O objeto concreto, táctil, determinado vê sua definição como ser indefinido. Porém, esse indefinido tem seu nome.

Então os olhos fitam a ausência. O lugar vago se torna mais evidente, os rotos virados, meu corpo sem abraço, a lágrima que sozinha seca, o chão frio que me suporta. Sempre há algo me pressionando contra o chão. Mas sem você o ar tem mais peso, o ar fica mais denso.

Quando perco o juízo, perco porque na sua ausência nenhum dos azulejos possuiu a mesma cara, eu descubro como odeio todos os quadros pendurados na parede da sala e que todos os programas de comédia são sem-graça.

Alguns dizem que a solidão faz crescer. Outros que estar sozinho lhe faz ver com mais clareza quem se é. Bem, na minha solidão eu enxerguei, mas não a mim, mas a você. O espaço onde estaria você, o espaço que ocupam seus pés, vi que no quebra-cabeça da minha vida seu sorriso se encaixa com todas as outras peças. Vi as lacunas que ficaram na sua ausência.

O que descobri com a sua inevitável ausência que em minha alma a vida é inviável sem a sua presença.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Maré de azar

Às vezes a gente descobre que nossos desesperos não passam de uma paranóia boba. Aquele suor frio, o medo que cortava a espinha do oriente ao ocidente, o ar seco que rachava os lábios em um dia frio.

Nós temos sonhos, aspirações, desejos. E, por algum motivo que desconheço, gostamos de acreditar que irão se concretizar. Você vai casar com a pessoa que ama, terão filhos, uma boa casa, um bom trabalho, viajará pelo mundo, conhecerá gente, será famoso, terá aquele carro esportivo, uma casa na praia ou às vezes você só quer tocar os lábios daquela garota com quem nunca teve coragem de falar e que não sabe da sua existência.

Mas desse sonho perfeito, que acreditamos estar predestinados e que logo dará certo, logo se fica no plano dos sonhos. Você não consegue se satisfazer. Sente ciúmes, raiva, medo, angustia, solidão, traído, largado, usado, errado, perdido, isolado, esquecido, rejeitado, ferido. E na maior parte das vezes você não tem razão. São sentimentos, a última coisa de que derivam é a razão.

Então, quando não bastava a sua esquizofrenia, vem a realidade e o faz crer que toda a sua paranóia é real. Você leva a primeira rasteira da vida e crê ser uma seqüência. A sua insegurança, que já era incrivelmente perspicaz, se torna homérica. Você começa a destruir sozinho a tudo aquilo que tinha e não perderia por um simples e mero abalo qualquer. Ninguém mandou ser humano.

Dessa humanidade devassa que corre em suas veias, por alguma sacanagem do destino, vem também a solução dos seus problemas. Passa uma noite, duas ou dez, e você esquece do passado intempestivo.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Cotidiano II

Seis e dez da manhã, o despertador grita e, com a delicadeza de um paquiderme, ela o desliga. Mais um dia como outro qualquer.

O banho morno pela manhã. Graças ao Pai pelo gás encanado, pensa. Faz de tudo para não molhar um fio de cabelo; não confia na toca, acha que esse plástico vagabundo engana. Não confia muito na propaganda do sabonete, por isso, compra o que sua mãe sempre comprou ao invés do que parece ser melhor na propaganda. Mas testar, nunca testou.

Ao sair do banheiro, enrolada a duas toalhas enormes, confere o esmalte, apanha os cremes e se a senta à penteadeira. Lá vem toda uma seqüência usual. Creme às pernas, ao rosto, às mãos, ao cabelo, creme ao creme. Muito creme.

Após fechar os vasilhames apanha a escova. Escova à direita, à esquerda, e escova mais um pouco. Na realidade perde uns dez minutos escovando aos cabelos. Quando se convence de que melhor não fica, vai se vestir. Nessa brincadeira já são dez para sete, e as oito ela tem que bater o cartão.

Vai à cozinha, abre a geladeira, pega um suco qualquer, nem presta atenção na cor da caixa, toma sem sentir o sabor. Que sabor? É tudo sintético. O suco de limão parece o de groselha e tem gosto de uva, o de uva parece o de limão e tem gosto de groselha, e o de groselha parece o de uva e tem gosto de limão.

Come uma maçã e se dá por satisfeita. Um café da manhã esplendido, ao menos para os seus padrões de dois minutos.

Por sorte, mora a dois quilômetros e meio do trabalho. Iria a pé, se não houvesse um calor infernal, se sua produção não fosse toda devastada pelo cruel vento que há lá fora. Vai de carona. Ela detesta o rapaz que dirige o carro. Ele sempre faz cantadas bobas, já roçou um dedo em sua coxa ao trocar de marcha e por isso levou um tapa.

Labutava ao trabalho, secretária executiva não tem vida fácil, principalmente quando seu patrão é egocêntrico e crê que sua secretária é uma agenda ambulante que deve tomar conta dos detalhes de sua vida, que é a responsável para que tudo dê certo. Ao menos, ele pensa que o mundo funciona assim. O mundo pode até não funcionar assim, mas seu escritório de contabilidade...

Dentro de toda essa correria, o escritório aos poucos se esvazia e o patrão deixa sobre sua mesa uma série de arquivos para que ela organize, sem falar na agenda do dia seguinte para finalizar. Ter que fechar o escritório era algo irritante, muito desgastante, não era a sua função e ficar até tarde, não ter tempo para si, era revoltante. Revoltante até o dia que descontava o contracheque.

Ah! Como ela gostaria de estar à beira-mar, passeando descalça com os pés beijados pela ponta do oceano que desemboca no último tocar na areia, ouvir a onda quebrar. Ah! Como ela queria! Pena que não podia.

Sentia o desejo de desaparecer, de mudar, de sumir de toda essa pugnação indigesta por ninguém que realmente faça parte de sua vida. Está cansada em esfacelar-se por estranhos.

O emprego era bom. Perto de sua casa, bom salário, seguro, com todos os direitos assegurados e todos os conformes em dia. Mas era um saco.

Terminou de pensar, agora faltavam apenas umas dez páginas para organizar. Mas para que organizar? O patrão nunca olhava os arquivos!? Ficavam num andar a baixo, empoeirando sobre as prateleiras. Para que tanto trabalho? Para que a poeira tivesse seu espaço, afinal, poeira coitada, malograda por todos, precisava do seu espaço! Mas para isso a pequena tinha que ficar até mais tarde lá no escritório, fazendo o trabalho que sobrou e que ninguém realmente precisaria fazer. Era por caridade a cada tufo de poeira carente! Ação social de uma empresa, incompreensível o mau gosto com que a guria levava essa obra...

Depois de pensar mal de Deus e do mundo, ela acaba. Tranca tudo, e sai. Vai andando para casa, em meio ao silêncio da ausência do trânsito que já acabou há algum tempo. São quase dez da noite.

Ao passar frente à padaria resolve tomar um café e comer algo já que não há janta em casa, já que não está disposta a preparar nada a essa hora.

Come uma pequena refeição e um chocolate na sobremesa. Chocolate, segundo ela, dependendo de qual for a marca, é tão bom quanto sexo. Bem, eu nunca vi nenhuma mulher a ter orgasmos comendo chocolate. Mas se for ela quem diz, quem sou eu para discordar?

Após ter seus delírios do sabor ao leite, vai descendo a rua para enfim chegar a sua casa. O sinal está amarelo, longe vem um carro preto, meio devagar, mas ela nem o olha, apenas mantém os olhos fixos ao farol.

É atropelada. Caída ao chão, passa alguns minutos desacordada.

Ao acordar vê um rapaz olhando-a fixamente. Ela se enche de raiva, vê que seu vestido rasgou, que sua blusa perdeu uns dois botões, ficara suja. Sem falar nos arranhões nos braços e pernas que ardiam.

Vendida ao ódio, só queria degolá-lo, até que ele concebeu seis palavras: “Meu Deus, como você é linda”.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Cotidiano I

Ajeitou o paletó, acertou a gravata, passou a mão aos cabelos, olhou-se e viu-se ao espelho, criticou-se por um instante e gostou. Pegou a pasta que estava aberta sobre a cama e colocou alguns papéis que estavam junto ao seu livro na cabeceira.

Chega à cozinha, pega o café de ontem, ainda frio, toma-o, olha o jornal por cima, não vê nada de relevância verdadeira, apenas mais desfalques, picaretagem ou viagens de lideres para falar de absolutamente nada. Nada que intervenha e sua vida e quebre seu cotidiano.

Dá um afago ao cão. Larga o jornal. Esqueceu o café pela metade, estava horrível, amanhecido, frio. Não comeu o pão, deu ao cachorro, não tinha fome pela manhã; sua mãe sempre deixa o pão que, se comesse, lhe embrulharia o estômago.

Abriu a porta da rua, apagou a luz, apesar de ainda não estar claro, sua mãe tinha a mania de deixar as luzes acesas à noite quando ia dormir. Olhou para casa por desencargo de consciência e fechou a porta.

Desceu os degraus, nem os reparou, quase tropeçou por desleixo, segurou-se ao corrimão. Esbravejou, recompôs-se e entrou no carro e foi-se.

Meia hora depois, sua mãe se levanta. Vê migalhas aos pêlos do cachorro, sorri, já sabe que seu filho deu o pão outra vez ao cão.

Vai à mesa, recolhe a xícara e o jornal, arruma a mesa, faz duas torradas, suco, um pouco mais de café, deixou a mesa posta.

Levou o cachorro para o quintal, colocou a ração que o cão detesta, mas tem que comer, à vasilha. Vai ver o pão adormecido é tão mais saboroso que aquela coisa marrom que o cão fique com nojo da coisa marrom só de ver. O enjôo de um é o tesouro do outro.

Quinze minutos depois seu marido acorda, senta-se a mesa, dá a ela um afago e apanha o jornal sem tocar a comida, da forma como ela detesta, pois, segundo ela, o jornal é sujo e comer com mãos sujas de jornal é nojento. Ele acha isso uma bobagem. Já foi uma dificuldade convencê-lo a lavar as mãos antes de comer, diga-se então não ler o jornal a mesa, sobre suas tenras palavras, do alto de seus sessenta e oito anos, isso é tudo uma viadagem.

O pai é uma figura interessante. Machista deveras, militar da reserva, endoidou quando o filho cogitou ser vegetariano, para ele, essa história de comer apenas folhas é coisa de maricas. Só aceitou a idéia de o filho ter tal prática quando soube que era proeza do rapaz para arrastar asas a uma bela guria.

O jovem era mulherengo. Era. Depois que se enveredou em certos lençóis e acabou se traindo pelo apego, descobriu o que é sofrer nas mãos de uma mulher. Depois disso desistiu um pouco. Encheu a cara umas duas vezes, mas não conseguiu olhar pra mulher alguma, só queria esquecê-la.

Leu todo o jornal, xingou o presidente até a sétima geração, isso porque lhe faltaram termos, leu sobre o próximo jogo do seu Flamengo, que apesar de estar aos trancos e barrancos, é o seu Flamengo.

Largou o jornal sobre a mesa, pegou um copo de suco, um pedaço de bolo e um pão; foi para a sala assistir tevê. Assistia a tevê e a criticava, falava da pouca vergonha, da safadeza e das bobagens ditas. Odiava, mas assistia, odiava, mas sem ela, viver não conseguiria, pois todo dia são os mesmo programas, as mesmas birras, as mesmas coisas. E sem essas coisas, seu dia vazio ficaria

A senhora segue limpando o domicílio, seguindo a rotina, arruma e limpa os quartos, a sala, cozinha, banheiros, lava as roupas, vive em função da casa. Passam-se os dias, passa-se a vida e ela continua ajeitando a almofada na sala.

O rapaz logo chega ao trabalho, escritório chato, cheio de papéis pra lá e pra cá, por todos os cantos é papelada, burocracia; é forma que encontramos de organizar o tumulto de nossas vidas, uma forma bela de construir a desconstrução, desordem corrigida pelo acaso que muda nossas vidas.

Trabalha, trabalha e trabalha, labuta e cai o suor. Tudo para passar e esquecer a insignificância daquilo que fazia, carimbar papel. Lia as baboseiras escritas por advogados que defendiam as picuinhas dos outros, seu dia era apenas ler e carimbar, carimbar e ler.

Seus colegas tiravam-lhe sarro. Nenhum deles lia nada, olhavam por cima, só liam o que acham engraçado para comentar na salinha do café. Conversavam das bobagens alheias, de como a nova secretária do dono do escritório é gostosa, que o jogo de quarta-feira foi horrível, marcam um churrasco no domingo, que nunca se realiza, combinam de tomar algo depois do trabalho, que sempre acontece.

Cinco horas, horário sagrado, intocável, apenas infringido quando o chefe ameaça com horas-extras, as pastas pretas com papelada chata, tão odiadas.

Logo o trabalho acaba e todos vão matar o cansaço na mesa do bar. Música, alegria, bebida, conversa vaga em todos os cantos, garçonete com uma minúscula minissaia, desafrouxadas gravatas, paletó no carro, sem os sapatos do dia inteiro, roda de samba, cantoria, alivio.

Pegou suas chaves e saiu. A rua vazia, tímida. O rapaz morava longe, mesmo quando o tráfego ajudava, a casa demorava a chegar. Por um acaso foi trocar seu cd, abaixou-se, passou ao sinal vermelho e uma jovem atropelou.

Saiu do carro, desesperado, desarrumado, desajeitado, trocando os passos, olhou-a como se fosse à última, admirou-a de ponta a ponta, até que abriu seus olhos e disse “Babaca”.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Leve Crônica de Aspargos

Às vezes esquecemos a vida, mas não por falta de memória, sim por aquilo que invade o peito e explode, deixando a razão e a emoção em cacos.

Você se perde, vê um mundo psicodélico e assustador, vê-se só, numa situação constrangedora, sente-se humilhado, vê que todos apontam e riem de você, vê as pessoas que ama indo embora, vê seus sonhos ruindo, vê um mundo horrível do lado de fora da janela. Tem medo, tem que se esconder embaixo do cobertor, entra em desespero, sente na pele o clamor daquilo que mais teme sorrindo defronte ao seu nariz.

Até que passa, você olha para os lados e vê; sorri e outra vez sobrevive, segue, progride como outro alguém diferente do que era antes. Mas, mesmo assim, ainda é você.

Olha para o canto e vê o gato passar, ele se espreguiça, roça a parede da poltrona, olha pros lados e finge um miado, mas não, foi apenas um leve bocejo, até o gato está cansado!

‘Eu estaria lá por você, mas eu estou muito cansado para me levantar da poltrona macia e desligar a tevê! Isto aqui está bom demais!’

Eu poderia me envolver novamente, poderia beijá-la, poderia amá-la mais do que amei todas as outras, eu poderia até morrer por você se fosse preciso, mas não, eu prefiro jogar tudo isso fora e jogar um pouco mais de play station, pegar umas bolachas no pote e engordar mais uns dois quilos.

Eu poderia ir atrás de você, mas eu prefiro me esconder aqui em casa, atrás do enfeite da mesinha ou talvez em baixo da escrivaninha, quem sabe em qualquer outro lugar da sala O que eu não posso é admitir para mim mesmo que eu gostaria é de me esconder em seus braços.

Sou um medroso, um palhaço, tenho medo de admitir a mim mesmo o sentimento! Que homem logrado! Parece mais um cão correndo atrás do rabo... E este nunca alcança, caí ao chão e não compreender por quê! Tapado!

Enganado por quem, cara pálida? Conta-me o segredo do meu temor, porque quando eu olho em seus olhos me tremem as pernas, lacrimejam os olhos, suam as mãos, o olhar se perde... Não tenho forças para olhar em seus olhos, seu perfume me desequilibra e eu sinto que não estou em lugar nenhum.

Báh! Mais uma vez apaixonado? Não, não o posso! Irei sofrer incontrolavelmente, irei olhar o sol poente e perguntar por qual motivo ele se vai e me deixará só frente a ela. Por quê? O vento sopra e levanta as folhas marrons já mortas, ele ventila as cinzas do dia, leva embora o perfume das flores diurnas, leva a tristeza de um ciclo sem o objeto de desejo e deixa o sonho daquele beijo, banhado ao pôr-do-sol de iludir-me na divagação vã. E lá se vai mais uma tarde.

Talvez o salivar da minha boca seja o sinal que o sabor do veneno já está adaptado junto aos meus aminoácidos. Talvez o fato d´eu sentir mais sede dos seus lábios que da própria água já signifique alguma coisa, mas eu não sei, sou só um qualquer jogando palavras cruzadas. Qual o nome da Primeira Deusa Grega com quatro letras?

Verdades, mentiras, todas sendo lavadas na mesma vasilha, serão separadas como feijão, mas infelizmente nossa justiça é cega, a verdade vai para o lixo, a mentira vai para panela, e depois não entendemos porque o feijão está tão ruim e por que o seu sobrinho quebrou dois dentes.

Eu gosto de olhá-la de longe. Mesmo que me sinta tentado em me aproximar, mas sei lá, é tão confortável ficar aqui admirando, depois reclamando, questionando o céu do por que d´eu nunca ter você aqui, será que você me diz?

Provavelmente não vá precisar, pois eu sei, só não consigo admitir que estou tão acomodado com o platonismo que talvez amar assim seja automático; deixar o amor escapar sem se realizar seja o que eu posso fazer para não permitir que meu sentimento ultrapasse a idealização, para não tirar de você o meu estigma de perfeição.

Ás vezes penso em você como um anjo, ás vezes penso em você como uma flor, mas descobri que faltou pensar em você como você, faltou lhe ver como ser humano, faltou eu tirá-la a perfeição e tratá-la como mulher e ao invés de adular a todas as qualidades, faltou amar seus defeitos.

Quando olho seu retrato viajo, viajo nos seus óculos escuros, viajo nos seus lábios, suaves, tentadores e sensuais, viajo tanto que quando vejo que você está presa aos meus pensamentos, você se torna uma constante, é lei irrevogável, meu álibi, meu motivo, minha distração, é aquilo que me faz viver sorrindo enquanto todos estão chorando com o final refrão.

Gosto de olhar para o pôr-do-sol. É uma pena que mal possa vê-lo com tantos prédios ao redor, perdi o horizonte, o mundo me separa do belo, o concreto, o moderno, comprou-me com o conforto e eu me vendi pela facilidade, agora corro atrás da comodidade, corro para subir sobre quem estiver vacilando abaixo.

Você poderia me dizer, eu poderia ouvir, mas estamos muito ocupados com coisas mais importantes, preferimo-nos a todo esse mundo doente, prefiro ficar perdido em seus lábios, enroscado em seus braços a discutir política ou as mazelas que haveremos de enfrentar. Visto em seus olhos há um mundo muito mais bonito, visto em seus olhos eu tenho um motivo para ficar aqui sentado por horas e horas, sentindo seu perfume, tocando sua pele, deitar ao chão, sobre tapete bege.

Ontem derrubei o pote de aspargos, vi mil desenhos se formarem ao chão. Parecia criança deitada no gramado da praça olhando as nuvens para ver com que se pareciam. Com alguns aspargos escrevi seu nome. Logo pensei quão bobo eu era. Tolo, apaixonado, um ato infeliz. O mais infantil dos homens praticava um ato nada mais que ridículo. Logo pensei, quem gostaria de ter seu nome escrito com aspargos?

A todo instante um sonho morre, a cada instante se perde uma oportunidade, a cada olhar pode-se descobrir um pouco que há de gente na gente. Mas o relógio corre, a vida acelera a maratona, seguimos no ritmo da degola, e esquecemos os aspargos no pote quando deveríamos joga-los ao chão, rasgarmos nosso pedestal e ser intensos pelo puro simples ato de cada dia estarmos vivos, ainda.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Menino sujo

Dedos finos, sujos, cobertos por uma camada escura de suor ressecado, poeira e terra. Cabelos despenteados, olhos baixos, sempre ao chão, intimidado pela veste bem passada e limpa do rapaz sentado que empunha um saco de papelão.

Sua voz é tremula, seus passos são tímidos, demonstra um forte sentimento de humilhação, como se sua alma tivesse sido pisoteada por uma manada de mais de um milhão de paulistanos que utilizaram aqueles trens neste dia de domingo.

No desespero de seu corpo inchado, mutilado, repleto de hematomas tão evidentes por suas roupas – trapos que expõe ainda mais a violência que seu corpo sofre –, contrapõe-se a propaganda de refrigerante no painel da estação do metrô Santa Cruz.

Inclina levemente seu rosto, expõe sua face ferida, os calombos de seus rostos mostram perfeitamente o formato do punho cerrado de seu padrasto. Sente vergonha.

Sua mão treme, a humilhação é ainda maior por ter que pedir. Ele pede, já que não consegue mais implorar. Não pode mais fazê-lo. Não depois de tanto tê-lo feito ontem de madrugada, quando encontrado havia sido e gentilmente advertido fora com pontapés e socos.

A voz balança a cada sílaba. Moço, me dá um trocado? Seus olhos não saem do pacote de papelão com o ‘m’ grande e amarelo.

É terrível ouvir um terrível não. Sua cabeça – que outrora era cabisbaixa – agora estava praticamente a se esconder em si mesmo.

Ele não sabe se me odeia, se quer voar em meu pescoço e revidar cada golpe que sofrerá por voltar sem os centavos que o neguei, não sabe se procura um buraco para se enterrar, não sabe se quer ficar ou se quer sumir.

Quando virava de lado, vê a mão se direcionar em seu ombro. Espera! Eu não disse que não daria nada. Dali, vê sacar-se um saco de batatas e estas entregues são em suas mãos.

Sem entender, pega o saco, apanha algumas batatas e as devora, e devagar segue até um banco e senta. A cada batata, uma lágrima.

Era apenas um menino sujo, faminto, ferido, humilhado, rendido, sozinho, resignado. Pede para não apanhar. Apanha para pedir e acaba sempre por ganhar uma nova marca para em seu corpo lembrar que não deve pedir. Deve é implorar, pois foi a vida que lhe deram aqui.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Conto de infância


Os ladrilhos amarelos davam o tom do quintal. Nas manhãs de sol tímido, porém lascivo, de ponta a ponta eu via próximos ao varal, bem longe, no alto intocável por minhas pequeninas mãos, trafegavam lépidos colibris.

Batiam velozmente suas asas, tanto que nem as via. Ficava irritado, já que a asa do pardal, como é, eu sabia. Mas os colibris estavam inalcançáveis para o alto dos meus seis anos, e por mais qu´eu pulasse, o beija-flor de mim riria.

Voavam irrequietos, apresados, lembravam-me os paulistanos que eu vira na tevê, sempre apressados, mas acho que nem eles sabem o porquê de tanta azáfama.

A mulher lavava roupa e eu balançava a cabeça ao ritmo da água que brotava da torneira, o som do esfregar a roupa ensaboada dava tom à melodia do meu cotidiano risível, a mulher enxaguava mal a roupa e pendurava no varal.

O colibri era atraído pelo sabor do novo sabão em pó, que agora tinha aroma de flores, e voavam tontos sem ter idéia de onde as flores ficavam, vagavam como baratas tontas ao spray inseticida.

Pior tonto era eu, que na descomunal valsa sem ritmo imposta pelos colibris, ficava perdido a querer tocar o pássaro destro, mas esse sempre me deixava sem nó.

Então, um dia meu pai comprou uma mangueira de pressão. Acabou-se o baile, acabou-se o cheiro, e o pequeno guri, que era eu, conquistou nova diversão.

terça-feira, 11 de março de 2008

Pé de árvore

Um dia um guri me perguntou:

- Faz o que da vida cidadão?

Eu disse:

- Estudo, Trabalho, Escrevo e Sonho.

Perplexo, olhou de lado e fechou a cara com indagação:

- Sonha?

- Sim, sonho.

- Sonha com o que?

- Sonho com a vida. Sonho com os amores. Sonho com um sorriso. Sonho com um bom sonho, eu sonho.

- Mas todo mundo sonha.

- Nem todos. Alguns podem até ter um sonho. Mas eu sonho.

- Como?

- Não é objetivo, não é delírio, nem saudosismo, não é ilusão, não é indagação, é possibilidade, é olhar ao horizonte e ver a vida em todos os lugares, é mais do que se pode apalpar com as mãos, bem mais distante d´onde seus olhos alcançam, é simplesmente o brisar de uma criança. Não tenho um ponto lá ao longe, eu tenho representação intensa e presente, é real, é presente.

- Não faz sentido.

- E que sonho faz sentido?

- Os meus fazem.

- Parabéns.

- Pelo que?

- Por ser um chato.

- Chato?

- Onde lá se viu sonho exato?

- Ah Vai!

E assim se finda o diálogo, cada qual se vira para um lado e bufa, eu com meu sonho e insensatez e ele com a exatidão e aquilo que eu não sei. Também não faço a menor questão de o saber, apenas me limito a seguir esse caminho sem trilho, apenas sigo e vou até aonde a aspiração me levar, eu vou seguir, vou sem me preocupar, vou caminhando, vou a sonhar, deixo que seja o que será, dando ao acaso o conduzir da rima, fazendo de cada inesperado um sonho, ou, ao menos, possibilidade de um bom momento da vida.

quinta-feira, 6 de março de 2008

O Coração e o Ingrato

- Até que ponto irei eu insistir para ter o seu amor? Como posso resistir? Eu fiz de tudo para ganhar você para mim, mas mesmo assim...

- Apesar de minhas rosas, por outros braços fora embora, todos os meus versos, tudo o que eu soletro, todo o meu coro, nada, nada, nada fez você acreditar que era eu...

- Amei-a com toda intensidade, entreguei-a o meu coração, é a mais pura verdade. Eu tive tudo sem saber, mas por que insistir, se quanto mais eu persisto, mais eu me firo?

- Acalma! Se os erros foram no intuito de encontrar a verdade, qual é a maldade? Depois de ter vivido tudo aquilo, poderia ter ido aos confins, mas não, eu só fui até ali! Relaxa! Sou um coração dispendioso, mas sou amável.

- Se me atiro sobre lábio qualquer não quer dizer que não há sentimento. Na verdade, é apenas passageiro, é sombra sem parcela de responsabilidade. Deixa ser como será!

- Mas o que será, oh seu malévolo revoltoso que se atira ao revés sem mesmo me consultar, se apaixona e derrama sobre mim bálsamo envenenado, entorpecendo-me em delírios, beijos de saudade! Oh, sossega-te e não me atormentes mais!

- Veja bem meu caro, sem novos amores, qual é o sabor de continuar nesse cintilar ingrato? Se não vê o que sinto quando me atiro, não é culpa minha, não é por qualquer coisa que dispenso a vertigem de um novo amor... Ah! Seus abraços, seus sorrisos, seus beijos e seus traços! Não se limite a pequenos sapatos, se realmente o que calças é quarenta e quatro. A pior tirania Humana é calçar sapatos apertados. Liberte-se desse mal, deixe-se viver, se atire, sinta, larga a mão desse esconder ingrato!

- Coração, boêmio inexaurível, deixe de ser fecundo em atrocidades, suas cicatrizes já me custam muitas verdades, explique a paz que não há, explique essa dor que não quer cessar! Canta-me por que da saudade que não acaba mais!

- Meu prezado, é tão simples, tão fácil, só você não vê que aquela bela dama, da qual você menospreza o meu parecer, conquistou você com leves beijos, jeito extrovertido, levou-me aos maiores delírios; e nesse compasso você seguiu comigo e, hoje, não há mais solução: ou se entrega, ou se entrega meu caro turrão!

- Não acredito em tais palavras, não será você a me ensinar aquilo que deveria ser. É um desiludido, perdido em tardes de domingo, mal sabe o que faz! É um vagal por completo, tenta iludir-me nesse momento incerto em que não sei o que fazer. Pensa que sou o quê? Acha mesmo que estou eu apaixonado? Acha que eu sou o que meu caro? Não me entreguei com tal facilidade, não serei eu o primeiro a cair sobre essa suas falsas-verdades, deixa-me em paz e leva contigo o que não me satisfaz.

- Veja, o sentimento existe, mesmo que você não acredite. Resista o quanto puder, pois o tempo o dirá, a verdade, qual é. Se você não quer se atirar nesse amor, a derrota será sua, a dor será minha, as lágrimas e as conseqüências por você serão todas sentidas. Apesar de tudo, vê se me escuta da próxima vez, pois ela já se foi e você ficou sem ao menos ganhar dela um adeus. Comporte-se e quem sabe um dia eu encontro outro amor vertiginoso e incerto, porém terno, para que um dia o coração não seja o seu amigo indigesto!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Para ela (sob influência de Allstar)

Estranho seria se eu não me apaixonasse por você
Você foi invadindo cada canto, preenchendo todo meu espaço
Em pouco tempo, eu já nem sabia mais como fugir de você
Por mais que fosse forte, como resistir aos seus belos lábios?

Se fui eu, se foi você, foram os dois num momento exato
Eu fui bobo, um tolo, medroso, um frouxo, tive medo do inevitável
Tantas chances tive, o desejo contive até o instante insustentável
Então, me surge sem jeito, um beijo doce em meio a um abraço.

Estranho seria não ter o medo de perder a sua voz num estalar opaco
Aqueles trilhos levariam você a tão longe dos meus olhos desesperados
Sedentos, famintos em você, de tocar sua face em jeito desajeitado
Mas quase sem querer, foi ser você o meu sonho raro.

Depois de horas de palavras despertas
Sussurradas incertas
Que trarão contas de telefones estratosféricas
De tantas risadas sem métrica
Só restam-me poucas palavras a expressar o tom alto
Que se não fosse você
O meu coração seria mero vácuo.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Terapia

- Boa tarde, eu sou doutor Silveira, pelo que li aqui em sua ficha, você é o Paulo, correto?

- Correto, doutor.

- Então, Paulo, por que fazer terapia?

- Eu pensei que você fosse me dizer isto, afinal, não sou eu que recebo por estar aqui...

(Cinco minutos de silêncio)

- Então, o que te atormenta

- Nada.

- Nada?

- Não exatamente.

- Hum.

- Doutor, não sei mais o que fazer. É uma garota. É a garota.

- Fale-me sobre ela.

- É a guria do ônibus, doutor. Ela está me enlouquecendo, doutor, eu não agüento mais.

- Siga...

- Ela parecia ser a coisa mais linda do mundo, aquele sorriso mascarado, escondido, tentando disfarçar, o jeito solto de rir, aquele jeito meigo de se aproximar...

- E por que você não a agüenta mais?

- Doutor, era tudo mentira! Ela é uma ciumenta! Ela tem ciúme das minhas amigas, das minhas primas, até da minha irmã de dois anos ela tem ciúmes!? Encana com o meu futebol de Domingo, não pára de falar que eu a troco pelos meus amigos...

- Bem, o ciúme dela realmente não é normal, mas vocês já tentaram conversar? Com certeza ela tem algumas qualidades também, então será que não seria o caso de tentar contornar esse ciúme todo?

- Sim... Ela tem qualidades. Ela tem um bom gosto musical, nós temos boas conversas, ela cozinha muito bem, se interessa bastante por mim...

- Viu só, não é o fim do mundo!

- Doutor, me escuta, é o fim do mundo sim! Ela é meio doida. Às vezes ela enlouquece e inventa de querer discutir a relação e vive fazendo aquelas perguntas fatais...

- Perguntas fatais?

- Doutor, o senhor é casado?

- Sou.

- Então, não há como você não saber...

- Não?

- Claro que não! Sua esposa já perguntou ao senhor se está gorda? Já encanou alguma vez quando o senhor disse “Meu bem, como você está bonita HOJE”?

- Huuuuum... Sim, entendo. Realmente, são perguntas fatais. Nem gosto de lembrar, ontem à noite a Débora me perguntou o que eu achava da mãe dela passar alguns dias conosco...

- Nossa, doutor, não sabia que o senhor também sofria com isto!?

- Rapaz, todos nós sofremos.

- Então, doutor, a pior parte é a confusão, sabe? Às vezes eu não sei se a odeio, se a amo, o que realmente sinto por essa bendita!?

- Fale mais.

- Quando ela não está perto, eu sinto saudades, sabe, a falta mesmo, a presença dela já faz um marco em minha vida. Mas quando ela chega, ela me enche de ódio, de raiva, fica tirando as coisas do lugar, reclama que o meu quarto está uma zona, que eu deveria levar as roupas para o cesto de roupa suja e não fazer o meu montinho ao lado da cama. Reclama que tem muita coisa na mesa do computador, que eu rabisco os livros... Eu praticamente quero esganá-la e jogá-la pela janela.

- A Débora também faz isto comigo. Eu sei como é. Dá vontade de tapar a boca dela com um pote de formol, para que ela apague por alguns dias, até que esse encosto saía dela.

- É doutor. Mas sabe... Depois isso passa, ela senta na minha frente e abre aquele sorriso e não tem como não me derreter. Eu odeio como ela faz o meu ódio desaparecer, não dá pra ficar bravo com ela; ela simplesmente faz tudo sumir, o céu estava cinza, ela olha lá pra fora e vem um arco-íris.

- Vem cá e como é o nome dela?

- O nome dela? Bem, isso eu não sei.

- Como não sabe?

- Então, doutor, ela existe. Mas tudo isso que eu te falei nunca aconteceu.

- Não?

- É que todo dia eu pegava um ônibus pela manhã, bem cedo. Ela estava lá. E eu a olhava, ela me olhava, mas eu sempre fui muito tímido, então, nunca sentei ao lado dela, nunca tive a coragem de dizer um “oi” sequer, nem jogar aquelas conversas fiadas de “como o tempo está feio hoje”. E agora, nem eu, nem ela pegamos aquele ônibus e eu acho que perdi uma das maiores oportunidades de minha vida.

- Então, o seu problema é frustração...

- Não, doutor. Não sei se o senhor percebeu, mas o meu problema é com a imaginação, um tanto quanto fértil... E alguém que imagina esse tipo de coisa precisa de terapia, não acha?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Aquilo que eu não deveria dizer

LOS_HERMANOS:_Sentimental www.listengo.com

No dispone de flash




Aviso ao leitor que estas palavras baseadas são em tons e influências não racionais, mas por efervescência que tem me atacado e consumido nos últimos tempos.

Sinto uma incontrolável vontade de dizer tudo aquilo que explode a minha garganta, mesmo tendo apenas tido duas lembranças presenciais do que é o real. É incrível como o coração consegue fazer sua construções utópicas e fazer-nos acreditar com toda a força da alma num romance que seria de cinema.

Sou consumido por uma vontade de dizer tudo aquilo que contradiz minha racionalidade, de um sentimento aceitável e palpável, sentimento que todos adoram aparentar, inclusive eu. Por alguma ironia qualquer, não é este o caso daquilo que há hoje.

O amor é um jogo de aparências. Você não pode revelar o que sente por quem sente, isto é desarmar-se, ir ao campo de batalha sem sua armadura. Mas como saber o que sente a pessoa por quem algo você sente? É muito arriscado vulnarabilizar-se frente a quem não sabemos se quer nos acolher o ferir-nos com sua vil lança de rejeição.

Para quem joga num terreno aberto, é muito simples; expõe-se, assim, abre-se a lacuna da oportunidade. Ama oportunidade que, aliás, não existe, não é real. Apenas se revela - no momento que se expõe o sentimento escondido no âmago - aquilo que já era, mas outrora estava oculto. A resposta vindoura é aquela que já existia antes; ninguém vai lhe querer apenas porque você declara um sentimento, o que ocorre é o choque de interesses em comum. Deixa ser, não é o que me interessa dizer.

Outra opção, a mais racional, é a de ocultar-se aquilo que há em si. É jogar o jogo. Você sente algo, porém fingi não sentir, mas tenta de todas as maneiras despertar sentimentos em seu alvo de desejo. Assim, apenas revelar-se-á quando oportuno o for. Claro que sempre há o risco de nunca haver um momento oportuno.

O grande problema disto é tornar-se um amante platônico. Você pode acabar por amar intensamente de forma cega e irracional alguém que desconhece seus sentimentos e nunca os efetiva, apenas guarda para si, sofre, se destrói a cada dia, procurando subterfúgios para ignorar a verdade que lhe salta aos olhos a todos os dias. Quem sabe, talvez, a pessoa amada até saiba de seu sentimento, mas prefira fingir ignorância, pois é muito mais fácil ignorar aquilo que não se é capaz de lidar e deixar que você siga a viver a mentira que é amar e alimentar um sentimento que nunca algo será e se destruir com isto, procurando fuga em outros braços quaisquer.

Aqui entra o meu porém. Sinto, não entendo como, apenas sei que o é. Sei o que sente aquela por quem sinto. Sei que o amor só é amor se for sem razão, por isso confio nas boas intenções da minha insana carne a fazer escolhas como esta.

Há esperança, mas não a de ser o que eu gostaria que fosse. Quando se sabe a quem pertence o coração que você gostaria de ter para si e que este proprietário não é você, vive-se na angustia de jamais poder ter aquilo que sempre o quisera; amar como jamais amara alguém.

Ai entram as palavras que eu tanto gostaria de dizer, mas não o posso fazer. Não é medo de perder, pois só se perde aquilo que se tem e a realidade é que nada eu tenho. Eu só queria dizer que sem qualquer motivo eu a quero tanto, que espero apreensivamente o passar de cada hora para a oportunidade de a ver e quando a vejo, meu coração dispara, as palavras somem e eu nem sei o que fazer.

A conquista só se torna algo impossível quando se deseja aquilo que se quer de forma avassaladora. Eu não vejo horizonte para qualquer sentimento real de alguém por mim, principalmente de alguém por quem eu sinta algo; esta é uma boa sorte apenas concedida para uns poucos. Para pessoas como eu sempre sobra o mero sabor carnal de posse e toque, jamais o sentimento que transcendesse o banal sensorial, jamais me é permitido tocar de forma real a posse do amor, jamais me é permitido haver a destruidora paixão recíproca. Para mim, apenas restos e feridas.

Estar, gostar, apreciar. Para alguns é suficiente. E infelizmente, aquilo que eu não deveria dizer é, que tudo que eu quero é o tudo que não pode me oferecer. Se por acaso quisesse algo oferecer a mim. Amor? É coisa que só alguns podem ter e infelizmente eu não estou nesta lista.

Então, resta engolir as mentiras do dia-a-dia, enganar-se com cada lábio vazio que houver no caminho e aceitar como verdade as mentiras que conto a mim mesmo. "eu só aceito a condição de ter você só pra mim, eu sei não é assim, mas deixa eu fingir e rir..."

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Lembrança de um dezembro

Numa daquelas tardes insuportáveis de tão quentes de dezembro, meu pai aproveitava seus quinze dias de férias. Acordava às 8h45 da manhã, apanhava o jornal à porta, sentava-se no sofá da sala de estar, apoiando os pés na mesinha de centro.

Como sempre, minha mãe adentrava a sala, dava um tapa em seu ombro e dizia que ele estava destruindo sua mesinha, para ir lavar as mãos e vir tomar o café. Ele ria. E sempre riria enquanto ela acreditasse que um dia ele deixaria de por os pés na mesinha.

Eu já teria acordado há um bom tempo. Teria. Aquele dia a coberta estava especialmente aconchegante, meu quarto fresco e a casa calma. Eu não queria sair, sabia o que iria acontecer se saísse.

Mas a porta se abriu, aquela faixa de luz entrou e bateu diretamente em meu rosto e não adiantou eu fingir, lá estava a minha mãe me sacudindo.

Já acordei, resmunguei. Aquele olhar de você está me enrolando pilantrinha estava estampado na cara de mamãe. Mas ela fez que acreditou e saiu. Mamãe sabia que eu tinha noção do que acontecera e que o pior poderia acontecer. É provável que isto tenha lhe motivado a não me arrancar o edredom, como fazia costumeiramente.

Ontem à tarde, meu labrador fugiu. Mamãe voltava do mercado e ao abrir o portão para entrar o ligeiro Bob passou. Ele sempre fugiu, gostava de ir aos terrenos baldios da região, revirar as latas de lixo da vizinhança.

Mas desta vez não. Eu estranhei quando papai voltou sem ele. Ele sempre achava o Bob, que corria muito, mas era muito bobo e por isso preza fácil para qualquer um que tentasse capturá-lo.

Mas aquele dia que tudo fingia estar onde deveria, aquela atuação de meus pais de um dia normal se desconstruiu no momento que o telefone tocou.

Meu pai estava à mesa, minha mãe à pia, eu entrava na cozinha ainda sonolento, esfregando aos olhos, cabelo bagunçado, movimentos lentos e meu pijama azul.

A face de meu pai ficou pálida. Ele sabia o que era aquela ligação. Minha mãe passou de cortar cenouras, concentrara seu ouvido na direção de papai.

Ele apanhou o telefone, murmurou para mostrar que ouvia o que a outra pessoa falava. Sua face foi ficando cada vez mais preocupada, franzia a testa, a mão cobria os olhos e enxugava o suor frio.

Faça o que tem que ser feito. Até hoje me lembro de sua voz trêmula dizendo palavra por palavra. É como se cada letra fosse um corte de espada.

Papai nunca me contou, naquele dia apenas me disse que Bob nunca mais voltaria. Mais tarde fiquei sabendo por amigos da vizinhança que ele fora atropelado e que meu pai o levara para uma clinica veterinária, onde não resistira e se fora de vez.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Saudades

Há gente que faz falta, muita falta. Gente que nem conheci, nunca nem troquei uma sequer palavra. Gente que enquanto estava viva eu nem me tocava de sua importância e talento.

Cássia Eller é um exemplo. Hoje me peguei pensando nas músicas do seu Acústico Mtv. Um primor.

Cássia era dona de uma timidez inesperada, de um talento surpreendente e de uma pureza de caráter que levou Nando Reis a paixão.

No dia 29 ela completará 6 longos anos de ausência. Uma ausência sem volta, uma ausência forte e sentida. Não há talentos aparentes na música brasileira que tenham a mesma expressão de Cássia.

Apesar de alguns interpretes que surgem, Cássia era única. Única como foi Cazuza, Renato Russo. Apesar de não compor, era dona de musicalidade ímpar.

Saudades. Seis anos de saudades. Fica aqui um video, para matar um pouco dessa saudade.