sexta-feira, 30 de outubro de 2009
A Puta da Uniban
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Equilíbrio - A grande questão
Conversando com meus botões, vi-me com uma conclusão que deveria ser das mais óbvias: O grande problema do mundo é o equilíbrio - ninguém o tem.
Sempre pendemos em uma bipolaridade, estamos em uma cultura global que é maniqueísta. Sempre pendemos para um lado.
Por muito tempo, o mundo se dividiu em dois sistemas, comunista e capitalista.
O comunismo, visava alcançar um sociedade onde o coletivo imperasse, para que todos tivessem tratamentos iguais por parte do Estado e da sociedade. Tal tentativa não fora bem sucedida.
O capitalismo tem em seu liberalismo o ideal do individualismo. É muito ismo, sem dúvida, mas a ênfase no individuo e o abandono do coletivo é o que gera as mazelas de nossa sociedade atual. É isso que cria as falhas sociais como miséria, pobreza, violência e desigualdade. Outro sistema que não é bem sucedido.
O grande problema dos ideais humanos é que eles são focados e um único ponto, pendem a um único extremo, não detém equilíbrio.
Da mesma forma, nosso comportamento espiritual. Ou somos liberais ou somos conservadores... Pentecostais ou fariseus... Puritanos ou liberalistas... Fanáticos ou negligentes. Sempre pendemos a um extremo, sempre nos rotulamos e rotulamos aos outros em um extremo, da forma que aparentam ser.
Deus criou um universo que funciona em plena harmonia. A perfeição de Deus é harmônica, está em equilíbrio e funciona de forma sistemática. Somos nós e nosso pecado que desregulamos tais organismos, somos nós que rompemos o equilíbrio.
Hoje, para mim, a grande questão como Cristão é combater os meus preconceitos, os meus bloqueios e os meus traumas e saber aceitar a Deus naquele que eu condeno, naquele que considero estar em um extremo completamente diferente do meu.
Tenho duas experiências de religiosidade completamente discrepantes. Metade do mês vou a minha igreja, a IASD Nova Semente. Outra metade, à igreja dos meus sogros, Unasp Campi 2.
São ambientes complemente diferentes. Tive que aprender a enxergar a Deus em realidades diferentes, e entender que o que Ele quer é levar o coração de cada um de nós, que está em um extremo, para o centro.
Deus quer equilíbrio, comunhão e religiosidade de todos nós. Sejamos o que formos, o que Ele deseja é que saibamos estar em harmonia e não pendendo às nossas conveniências.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Só não roube sua ex-mulher
Era uma tarde como outra qualquer, para um desempregado. Meu emprego se foi com a desculpa de sempre; a tal crise econômica, corte de custos, a necessidade de enxugar a folha de pagamento.
Normalmente, perder um emprego não é o fim do mundo. É apenas um saco. São mais preocupações, ansiedades, medos e angústias para colecionar. Até que se encontre um novo emprego para se estressar.
Porém, para alguém que não possuía vinculo empregatício formal – aquelas bobagens que a gente faz para tentar manter seu emprego em uma crise e lhe faz a presa mais fácil na seguinte – ser despedido é como naufragar sozinho no meio do triângulo das bermudas.
Não pensava que, de todos os meus credores, minha ex-mulher seria a mais voraz e cruel. Sem renda, sem seguro desemprego, sem seguro e sem poder pagar a pensão de meus dois filhos. Até a companhia telefônica seria mais compreensível, mas uma ex-esposa não teria piedade.
Tudo bem que a gente faz umas bobagens na vida. Não vou negar que o divórcio foi por minha culpa. Ela tem motivo para estar ressentida, mas não esperava que fosse vingativa.
Engraçado o dia que fui preso. Não fazia idéia do motivo, até que meus carrascos me contaram suas razões. Os arautos da justiça estão atrás do cruel caloteiro das pensões. Afinal, por que correr atrás de quem cometeu um brutal e sanguinolento assassinato, se os terríveis não pagadores de pensão estão a solta!? E eu pensava que o SPC seria meu maior problema…
Não sabia se me indignava ou ria. Era eu tão perigoso para me algemarem? Que risco eu apresentava à sociedade? Qual havia sido meu crime, ser demitido? Minha vontade era chutar o banco do passageiro da viatura. O que de pior poderia me acontecer? Já estava preso por um dos motivos mais ridículos, qual seria o problema de arranjar um de verdade?
Aquelas algemas me irritavam. Eu sempre vi na tevê aqueles bandidos sem rancor algemados. Só de ver alguém de algema eu pensava mal da pessoa. Antes disso, eu pensava que, se estava de algema, o cara estava errado.
Quando antes eu poderia imaginar que por essas bobagens colocariam algemas em cidadãos de bem? Eu sempre paguei meus impostos, nunca cometi crime nenhum. Está bem; ás vezes uma ou outra multa de trânsito, mas isso não é exatamente colocar a vida dos outros em risco, não é?
Ao adentrar a minha cela, senti-me como um cordeiro entregue aos leões. Eu era o almoço após sete dias de jejum.
Por sorte, na delegacia dificilmente eles colocam caras como eu com os homicidas. Claro, os homicidas que eles pegaram cometendo um homicídio. Mas ao meu lado, três rapazes, por volta de 19 anos, que alegavam ser apenas usuários de 900 gramas de cocaína. Porém, ao cair da noite, contavam todos os passos, pontos e lugares para se conseguir drogas. Eu, um pai, um cidadão que nunca havia colocado um cigarro na boca, já sabia como conseguir a droga que quisesse, pelo preço mais barato, com o irmão mais “firmeza”.
Foram três dias até que meu irmão conseguisse regularizar a situação. Se eu fosse patrão, tivesse advogado, tenho certeza, nem teria que dormir na cadeia. Mas a gente faz o que nesse Brasil? Não dá para fazer muito, mas uma coisa eu percebi. Você pode dar calote em qualquer um, desviar verbas públicas e, se for esperto, roubar. Mas não pague sua ex-mulher e… eu garanto; é fatal.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
A dois passos do fim do Estado laico
Hoje nos deparamos com um dos acordos mais perversos, ideologicamente falando. Acertado pelo Vaticano e o Poder executivo do Brasil, a instituição de ensino religioso nas escolas públicas é um ataque a liberdade individual.
O acordo prevê que a disciplina fará parte do currículo base de formação.
É completamente compreensível que instituições confeccionais tenham em sua grade aulas de ensino religioso, por sua ligação direta e por terem como objetivo atender aos membros de uma instituição religiosa
Neste molde, ou as aulas de ensino religioso não passaram de desperdício de horas aulas ou não passará de mera doutrinação religiosa da Igreja Católica Apostólica Romana.
O Brasil não possui religião oficial. O Estado brasileiro se define como laico. Ou seja, um Estado que permite e garante o livre pensamento e a liberdade religiosa. Adotar o ensino religioso seria privilegiar uma religião em especial, depreciando as demais religiões – sejam cristãs ou não –, e até mesmo os não religiosos, os ateus e agnósticos.
Se isto fosse uma disciplina extra-curricular, fora da grade de aulas, uma opção para o aluno que não o expusesse, seria uma iniciativa até válida. Mas da forma como está sendo feito, não passará de um golpe numa das maiores conquistas históricas deste país como nação.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Um grande engano
A vida é um grande engano. Somos dotados da esperança de um porvir confortável, agradável, onde poderemos degustar aquela felicidade utópica de um filme meloso de Hollywood. Buscamos a felicidade em cada esquina, de forma tímida, disfarçadamente involuntária. Esperamos que um(a) estranho(a) que dobre a esquina guarde a formula de nossa felicidade em seu sorriso, desejamos ardentemente que o segundo seguinte venha acompanhado de um êxtase constante e infindo, uma mentira inventada pela nossa necessidade presente de completar o abismo que impera no âmago.
O que falta é uma resposta e a nossa tendência é procurar a solução em outra incompletude. Buscamos algo que encaixe, desesperadamente esperamos que a resposta esteja em um ponto exato, tátil e visível de nossa vida. É a forma mais cômoda e fácil de encarar o assustador vazio, buscar a resposta no vazio de outrem.
Nosso desespero se constrói quando o conto de fadas que construímos se mostra como um castelo de areia frágil que se desfaz com a repentina mudança da maré. A mácula que nos tortura se faz evidente quando nos deparamos com a frustração de espelho. Somos tão defeituosos que a imperfeição é um fato assombroso.
Perdemo-nos em ilusões vãs quando a verdade é que nosso foco está errado. Queremos ignorar a incompletude, queremos fugir da verdade de qualquer forma, mas é inevitável, nossa carne não mente, nosso sangue carrega o vil veneno de ser errante. Nossa sina é seguir desesperadamente de lástima a falhas, torturando nosso peito com esperanças de alegrias falsas que apenas tomam o tempo e intercalam o momento que encaramos a realidade.
A vida é um grande engano, pois queremos ver tudo colorido, queremos cores alegres, queremos música e requinte. Porém a vida não passa de um ciclo eterno, um romper constante, a instabilidade visceral de alegria e tristeza.
Mas a vida não é preto e branco. A vida não passa de um grande engano. A vida é um emaranhado de tons de cinza. Tentando esvair-se da escuridão e atingir seu deslumbramento de pura luz.
Tenro engano. Enquanto nossa busca for incansável por um sorriso perdido, quando nosso dia não for alegre enquanto os pássaros não entrarem pela nossa janela e nos fazerem crer na vida em conto de fadas, a vida não passará de um narcótico.
Narcótico que perpetuará durante o tempo que pulsar no peito a imbecil insistência de beber a ilusão, alcoolizar-se na esperança de não ter que encarar o fato de ser você mesmo. Ninguém gosta de estar tão próximo dos defeitos quanto à pessoa que os comporta, é para ela que eles os são mais evidentes.
Mergulhados em nossa escandalosa podridão, buscamos na imagem de perfeição dos outros a solução para a corrompida estrutura de vida que somos. É uma pena que imaculada imagem construída em nosso âmago seja incapaz de preencher os espaços não-preenchidos de nossas almas disformes. Uma imagem não passa de uma imagem, um reflexo distorcido por uma água turva. Quanto mais próximos, mais claro o reflexo. E quanto mais claro, mais abominável.
Somos insuportáveis. Tão insuportáveis e entregamos aos outros o carma de nos suportar. Se tivermos que nos suportar sozinhos, enlouquecemos. Talvez por isso sejamos tão incompletos.
Meu objetivo não é ser trágico. Nem simplesmente apontar o óbvio de sermos meras personagens construídas que buscam verdades em meras interpretações teatrais de outros que são meramente tão iguais a nós. Meu sorriso de canto está em dizer que ao encarar a incompletude e aceitá-la está a liberdade. A verdade é que há buracos que não precisam ser preenchidos, lacunas são necessárias, para que o tempo demarque a vida sem que desesperadamente tentemos planificá-la, quando viveríamos em verdade se estivéssemos interessados apenas em viver a vida.
Mas preferimos degustar a vida em busca de respostas, significados, verdades, de perfeição; vivemos em busca de algo que pudéssemos admirar. Ledo ardil. A vida não passa de um engano, cheio de incertezas, máculas e inverdades. Nós somos fogo e palha, queimando em nossos atributos como forma de seduzir e destruir o dia de outro alguém.
A vida é um grande engano. E a verdade é que adoramos nos enganar todos os dias. Temos prazer em viver essa pequenas mentiras, gostamos da sensação de torcer para que ela dê certo, mas gostamos da segurança de que não seja eterno, de não estar acorrentado, ligado definitivamente a uma decisão de puro contorno de pueril emoção.
A emoção se vai com o movimento e se perder no tempo, com isso a verdade vem à tona e se desfaz todo o enredo. Perdeu a graça para um. É o trágico fim para outro. É o apego brincando com o desapego, nosso jogo de cenas, num ato final que se desdobra enquanto nossas verdades ainda forem as mais incorretas.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Habemus Obama
O sentimento estampado nesta parcela da população que elegeu e se emocionou com Barack Obama me lembra muito a parcela que elegeu Lula. Ambos têm uma trajetória contextual muito parecida.
Ambos são populares. São líderes carismáticos, mais do que propostas, ambos carregam um simbolismo de mudanças. Mesmo que estas não sejam aplicadas, o eleitor enxerga nessas personagens históricas um ícone de transformação da realidade.
Ambos embarcam no poder após um período turbulento de seus antecessores. Lula pegou um governo FHC destroçado por crises internacionais e corrupção dos alicerces governamentais. O sentimento de frustração e insatisfação com o governo tucano possibilitou que o PT alçasse o poder. “A Esperança venceria o medo”. Principalmente o da Regina Duarte.
Obama convive com um governo Bush completamente destroçado. Guerra do Iraque, crise dos alimentos, subida do preço dos combustíveis, problemas ambientais e a crise imobiliária nos tempos de campanha. Tudo isso impulsionou o governo de George Jr. para o limbo.
Foram oito anos de medo nos Estados Unidos. O discurso antiterrorismo apavorava a população. E nestas eleições, os americanos pediram uma mudança.
Sinceramente, não acredito que essa mudança seja tão profunda. E creio que o mundo se decepcionará com Obama e os americanos poderão ter alguns de seus desejos satisfeitos. Porém, o discurso de Obama sobre mudar o mundo se restringe ao mundinho deles. Lembre-se que a Geografia deles, a capital do Brasil é Buenos Aires. Ele só sabem que Cuba é ali do lado. E duvido que isso vá mudar.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Abraço
Eram cicatrizes das mais belas, seus dentes eram perfeitos, um acerto genético que seus pais não esperavam. Nenhuma cárie, nem a possibilidade de usar aparelho, nem arrancar o juízo fora preciso. Mas essa mania de torturar o lápis era seu provável pecado bucal.
Sem dar-se conta de seu potencial devastador. Mal sabia ela que entortava pescoços ao roçar o bendito lápis ao lábio, lábio que era mais que desejado, lábio que atiçava e cativava, atordoando o sonhador mais acordado.
Seus pés marcavam o ritmo de uma canção qualquer que ouvira na rádio e pensará ser do tempo de seu pai. Era tão retro, porém simultaneamente instigante. Era o passado rugindo a sua realidade com palavras de um morto instante mui distante. “E se a dor é de saudade, e a saudade é de matar, em meu peito a novidade vai enfim me libertar!”
A aula era muito chata. O tempo não passava. Sua impaciência balbuciava seu mais digno tique, enlaçava duas mechas de cabelo com o indicador, mecanicamente. Seu olhar era reto e profundo, sua testa ligeiramente franzida mostrava a ligeira tensão que tomava seus pensamentos. O olhar era gélido, fixado num ponto vazio que ela em si não via.
O tempo a tomava por lembranças perdidas de quem se fora há pouco tempo. A dor da saudade matava, a dor da saudade era de morte. Sucumbia entre as fotos daquele que não voltaria; aquele que a fizera e sem avisar, fora embora sem uma sincera despedida. Seu coração só a ferida sentida, o pulsar tornava a dor mais evidente. Estar vivo só torna a dor que sentia ainda mais latente.
Quantos sonhos sonhara em seu colo? Quão alto fora levantada por seus braços? Via-se agora sem seu mais firme logro, via-se sem seu paterno laço. Despencaria do alto? Capaz seria de se levantar? O pó que arde é o da queda ao rosto e não o dos pés por em caminho pueril der dados aos pés compasso.
Seu anseio era por um caloroso afago. Seus olhos denunciavam o coração me pedaços, por tão cabisbaixos. Mas a solidão arma, a solidão assusta e quem mais precisa do afago é aquele que a ajuda recusa.
Ao perceber a desolação, alguém lhe pergunta, tudo bem?
Tudo. E fim. A mentira sincera da educação, onde se pergunta aquilo que a resposta não se quer ouvir e se a resposta for a de quem não quer falar, o jogo de vida de maneira perfeita acontecera.
E engolira o trêmulo. Fingira nada haver, fingira quem fora pouco ser, fingira o sorriso mais falso, fingira que fingira. Era tal falsa que a alegria soava apatia.
A esperança era vaga. Precisava de um milagre, precisava de insistência, precisava de alguém que a sacudisse o dissesse que não estava bem, estava em cacos, a dor a acometia de lado a lado, seu rosto era a transfiguração de quem não suportava o próprio fardo. Precisava que dissessem o que ela e todos já sabiam, precisava ouvir as palavras de tudo aquilo que todos nós já imaginávamos, mas desejo de dizer por ser tão cômodo deixar alguém se atormentar com uma angustia que ali não deveria estar.
A novidade fora o abraço. Descompromissado, inesperado e devastador. Está tudo bem, isso vai passar. E as lágrimas dela vêm ao ouvir as palavras de alguém que ela nem imaginava que a queria bem.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
O nosso grande palhaço Bush
Mas logo ao lado de uma foto da judoca estava a melhor piada do mês.
Em matéria que falava da recusa russa em aceitar a trégua proposta pelo G7, vem a brilhante frase do excelentíssimo nariz vermelho George W. Bush.
Folha de S. Paulo
Nosso querido faz-me-rir-mor, o campeão mundial em invasão injustificada resolveu bancar o santo e criticar a Rússia pela ação contra a Geórgia. A Rússia decidiu interferir no conflito com os separatistas da Ossétia do Sul, muitos moradores da região possuem cidadania russa.Não estabelecendo juízo de valor algum neste post sobre a situação da Ossétia do Sul e sobre o mote russo de invasão, tão legítimo quanto um produto paraguaio, Bush me fez cair em gargalhadas.
Bush disse que a Rússia invadiu um estado soberano e ameaça um governo democraticamente eleito.
“uma ação destas é inaceitável no século XXI” termina o atual presidente dos Estados Unidos.
É hilário. Então, se uma maioria votou, uma situação de opressão é justificável? Então a liberdade é condicionada a vontade do maior grupo? Então, as condições do Estado de Direito são dependentes de estarem em acordo com o impulso de uma massa populacional?
Se for assim Bush, prepare-se, pois a China é a mais nova dona do mundo.
As minorias têm o direito de existência e ter a sua liberdade preservada é um meio de preservar a democracia. Mas não a democracia no sentido de uma maioria e sim a existência de pluralidade, diversidade, multiplicidade. É necessário preservar o direito de ser diferente, é preciso existir coexistência.
Infelizmente, para Bush só existe o sistema democrático americano e aqueles que não se classificam em sua noção de Estado Soberano, com um representante eleito por um sistema de pleito democrático – mesmo que fosse este responsável por terríveis massacres como o é Mikhail Saakashvili, presidente da Geórgia – torna o processo justo e a democracia real.
É necessário se repensar os critérios políticos que legitimam um governo e as condições de uma intervenção militar.
Aliás, não é contraditória essa Euro – Ásia? Une-se por blocos econômicos e com abertura de fronteiras, livre passagem de pessoas e comércio livre, mas ainda assim se vê recheada de grupos separatistas que tentam se separar daquilo que está sendo unificado e que os engloba.
Mundo louco em que vivemos!? O país mais poderoso do mundo com um presidente hipócrita/piadista e o continente mais influente com tato contraditório para lidar com uma questão que põe em prova sua coerência unificadora.
Os interesses permeiam o caráter.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Leite Parmalat
Todas as verdades estão contaminadas. Todas as palavras estão perdidas em discursos vagos, direcionadas a corações imprecisos que se prendem a qualquer frase como naufrago se amarra a uma garrafa vazia de um bom falerno boiando ao seu dorso.
Nossas esperanças estão vendidas a velhos emergentes que enriqueceram com as falhas de ontem. Nossas crenças estão cerceadas por vontades mercadológicas, nossa alegria está condicionada a letras digitadas por um roteirista qualquer do outro hemisfério. Em qualquer prateleira se vê felicidade de plástico.
Nossos dias são sentados, muito bem acomodados, poltronas especialmente desenvolvidas, para aquela sua dor na segunda ou terceira vértebra, massagem para a tensão escondida de ter traído quem mais o ama, como se o amor não passasse de uma mera convenção mal estabelecida entre duas pessoas que se toparam e tiveram libido, por isto, condenadas estão a ter que aturar a outra existência, apenas para ter um maldito alívio.
De todas as nossas tolerâncias, o mesmo veneno ácido. Os dias se vão e se montam os próximos exatamente com o mesmo desenho flácido. O tempo voa e vai cada vez mais rápido, são pessoas correndo, em filas duplas, engarrafamentos praticamente estacionados.
E enquanto tudo isso se faz, as vacas nunca se cansam de ruminar o de que sobrou de ontem pasto.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Solidão
O que demarca o espaço, a lacuna é um vácuo, um vazio. O objeto concreto, táctil, determinado vê sua definição como ser indefinido. Porém, esse indefinido tem seu nome.
Então os olhos fitam a ausência. O lugar vago se torna mais evidente, os rotos virados, meu corpo sem abraço, a lágrima que sozinha seca, o chão frio que me suporta. Sempre há algo me pressionando contra o chão. Mas sem você o ar tem mais peso, o ar fica mais denso.
Quando perco o juízo, perco porque na sua ausência nenhum dos azulejos possuiu a mesma cara, eu descubro como odeio todos os quadros pendurados na parede da sala e que todos os programas de comédia são sem-graça.
Alguns dizem que a solidão faz crescer. Outros que estar sozinho lhe faz ver com mais clareza quem se é. Bem, na minha solidão eu enxerguei, mas não a mim, mas a você. O espaço onde estaria você, o espaço que ocupam seus pés, vi que no quebra-cabeça da minha vida seu sorriso se encaixa com todas as outras peças. Vi as lacunas que ficaram na sua ausência.
O que descobri com a sua inevitável ausência que em minha alma a vida é inviável sem a sua presença.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Adeus a ele
Foi um homem que construiu sua vida, suas poses. Errou muito, principalmente com minha avó, e até o fim de sua vida nutriu um ódio injustificável por ela.
Casou-se com uma prima, que cariosamente também chamo de avó, pelo exemplo de pessoa que era. Uma intelectual, sem dúvida, uma mulher de sucesso.
Minha avó, a odiada, pode não ter sido um sucesso acadêmico, tampouco científico, mas é uma das pessoas mais doces que há no mundo. E toda mágoa que meu avô causou a ela e seus filhos é intolerável.
No leito de morte meu avô deu o braço a torcer, recebeu e voltou a falar com minha mãe. Ao bater à porta a morte nos chama a lucidez ou ao desespero, não sei.
Infelizmente, não pude estar em seus últimos momentos, fazer parte de sua ida. Ele também não fez parte do meu início. Não que isso seja algum tipo de vingança ou justificativa, pelo contrário, muito sinto por estar longe de parte da minha família num momento pontual de sua configuração existencial, a morte do patriarca.
É duro ter que se limitar a distância e encarar ter a relevância de mero mapa genético, não fazer parte do dia-a-dia daqueles que de meio sangue meu tem a mesma origem.
Ele já foi sepultado. Não vi sua luta. Não vi seu agonizar. Não vi seu corpo sem vida. Não vi as lágrimas. Não pude dar abraços. Não recebi abraços. Sofri escondido, calado, depois de saber que morreu, muito depois do corpo já ter sido sepultado. Ele se foi e, quando eu soube, sofrer já era démodé.
Não poderia chorar aos outros prantos, já secaram as lágrimas do sepulcro, agora elas escondidas estão no fim dos dias de cada um que dele guardam boas ou más lembranças, que o odiavam tanto que chegavam a lhe amar e aqueles que o amavam porque simplesmente o haveriam de amar.
Levantar o peso nas costas de que estar longe é estar sozinho não é fácil. Não queremos acreditar, mas estar longe nos impede de fazer parte, não impede de sentir, não impede de nutrir um laço. Mas é um laço largado, distante, até que cheguemos perto, o cutuquemos. Se a gente deixa o laço largado, ele fica lá, até que o tempo o consuma e o que outrora havia se desfaça como pó que tudo há de voltar. Pó que volta agora meu avô.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Maré de azar
Nós temos sonhos, aspirações, desejos. E, por algum motivo que desconheço, gostamos de acreditar que irão se concretizar. Você vai casar com a pessoa que ama, terão filhos, uma boa casa, um bom trabalho, viajará pelo mundo, conhecerá gente, será famoso, terá aquele carro esportivo, uma casa na praia ou às vezes você só quer tocar os lábios daquela garota com quem nunca teve coragem de falar e que não sabe da sua existência.
Mas desse sonho perfeito, que acreditamos estar predestinados e que logo dará certo, logo se fica no plano dos sonhos. Você não consegue se satisfazer. Sente ciúmes, raiva, medo, angustia, solidão, traído, largado, usado, errado, perdido, isolado, esquecido, rejeitado, ferido. E na maior parte das vezes você não tem razão. São sentimentos, a última coisa de que derivam é a razão.
Então, quando não bastava a sua esquizofrenia, vem a realidade e o faz crer que toda a sua paranóia é real. Você leva a primeira rasteira da vida e crê ser uma seqüência. A sua insegurança, que já era incrivelmente perspicaz, se torna homérica. Você começa a destruir sozinho a tudo aquilo que tinha e não perderia por um simples e mero abalo qualquer. Ninguém mandou ser humano.
Dessa humanidade devassa que corre em suas veias, por alguma sacanagem do destino, vem também a solução dos seus problemas. Passa uma noite, duas ou dez, e você esquece do passado intempestivo.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Cotidiano II
O banho morno pela manhã. Graças ao Pai pelo gás encanado, pensa. Faz de tudo para não molhar um fio de cabelo; não confia na toca, acha que esse plástico vagabundo engana. Não confia muito na propaganda do sabonete, por isso, compra o que sua mãe sempre comprou ao invés do que parece ser melhor na propaganda. Mas testar, nunca testou.
Ao sair do banheiro, enrolada a duas toalhas enormes, confere o esmalte, apanha os cremes e se a senta à penteadeira. Lá vem toda uma seqüência usual. Creme às pernas, ao rosto, às mãos, ao cabelo, creme ao creme. Muito creme.
Após fechar os vasilhames apanha a escova. Escova à direita, à esquerda, e escova mais um pouco. Na realidade perde uns dez minutos escovando aos cabelos. Quando se convence de que melhor não fica, vai se vestir. Nessa brincadeira já são dez para sete, e as oito ela tem que bater o cartão.
Vai à cozinha, abre a geladeira, pega um suco qualquer, nem presta atenção na cor da caixa, toma sem sentir o sabor. Que sabor? É tudo sintético. O suco de limão parece o de groselha e tem gosto de uva, o de uva parece o de limão e tem gosto de groselha, e o de groselha parece o de uva e tem gosto de limão.
Come uma maçã e se dá por satisfeita. Um café da manhã esplendido, ao menos para os seus padrões de dois minutos.
Por sorte, mora a dois quilômetros e meio do trabalho. Iria a pé, se não houvesse um calor infernal, se sua produção não fosse toda devastada pelo cruel vento que há lá fora. Vai de carona. Ela detesta o rapaz que dirige o carro. Ele sempre faz cantadas bobas, já roçou um dedo em sua coxa ao trocar de marcha e por isso levou um tapa.
Labutava ao trabalho, secretária executiva não tem vida fácil, principalmente quando seu patrão é egocêntrico e crê que sua secretária é uma agenda ambulante que deve tomar conta dos detalhes de sua vida, que é a responsável para que tudo dê certo. Ao menos, ele pensa que o mundo funciona assim. O mundo pode até não funcionar assim, mas seu escritório de contabilidade...
Dentro de toda essa correria, o escritório aos poucos se esvazia e o patrão deixa sobre sua mesa uma série de arquivos para que ela organize, sem falar na agenda do dia seguinte para finalizar. Ter que fechar o escritório era algo irritante, muito desgastante, não era a sua função e ficar até tarde, não ter tempo para si, era revoltante. Revoltante até o dia que descontava o contracheque.
Ah! Como ela gostaria de estar à beira-mar, passeando descalça com os pés beijados pela ponta do oceano que desemboca no último tocar na areia, ouvir a onda quebrar. Ah! Como ela queria! Pena que não podia.
Sentia o desejo de desaparecer, de mudar, de sumir de toda essa pugnação indigesta por ninguém que realmente faça parte de sua vida. Está cansada em esfacelar-se por estranhos.
O emprego era bom. Perto de sua casa, bom salário, seguro, com todos os direitos assegurados e todos os conformes
Terminou de pensar, agora faltavam apenas umas dez páginas para organizar. Mas para que organizar? O patrão nunca olhava os arquivos!? Ficavam num andar a baixo, empoeirando sobre as prateleiras. Para que tanto trabalho? Para que a poeira tivesse seu espaço, afinal, poeira coitada, malograda por todos, precisava do seu espaço! Mas para isso a pequena tinha que ficar até mais tarde lá no escritório, fazendo o trabalho que sobrou e que ninguém realmente precisaria fazer. Era por caridade a cada tufo de poeira carente! Ação social de uma empresa, incompreensível o mau gosto com que a guria levava essa obra...
Depois de pensar mal de Deus e do mundo, ela acaba. Tranca tudo, e sai. Vai andando para casa, em meio ao silêncio da ausência do trânsito que já acabou há algum tempo. São quase dez da noite.
Ao passar frente à padaria resolve tomar um café e comer algo já que não há janta em casa, já que não está disposta a preparar nada a essa hora.
Come uma pequena refeição e um chocolate na sobremesa. Chocolate, segundo ela, dependendo de qual for a marca, é tão bom quanto sexo. Bem, eu nunca vi nenhuma mulher a ter orgasmos comendo chocolate. Mas se for ela quem diz, quem sou eu para discordar?
Após ter seus delírios do sabor ao leite, vai descendo a rua para enfim chegar a sua casa. O sinal está amarelo, longe vem um carro preto, meio devagar, mas ela nem o olha, apenas mantém os olhos fixos ao farol.
É atropelada. Caída ao chão, passa alguns minutos desacordada.
Ao acordar vê um rapaz olhando-a fixamente. Ela se enche de raiva, vê que seu vestido rasgou, que sua blusa perdeu uns dois botões, ficara suja. Sem falar nos arranhões nos braços e pernas que ardiam.
Vendida ao ódio, só queria degolá-lo, até que ele concebeu seis palavras: “Meu Deus, como você é linda”.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Cotidiano I
Ajeitou o paletó, acertou a gravata, passou a mão aos cabelos, olhou-se e viu-se ao espelho, criticou-se por um instante e gostou. Pegou a pasta que estava aberta sobre a cama e colocou alguns papéis que estavam junto ao seu livro na cabeceira.
Chega à cozinha, pega o café de ontem, ainda frio, toma-o, olha o jornal por cima, não vê nada de relevância verdadeira, apenas mais desfalques, picaretagem ou viagens de lideres para falar de absolutamente nada. Nada que intervenha e sua vida e quebre seu cotidiano.
Dá um afago ao cão. Larga o jornal. Esqueceu o café pela metade, estava horrível, amanhecido, frio. Não comeu o pão, deu ao cachorro, não tinha fome pela manhã; sua mãe sempre deixa o pão que, se comesse, lhe embrulharia o estômago.
Abriu a porta da rua, apagou a luz, apesar de ainda não estar claro, sua mãe tinha a mania de deixar as luzes acesas à noite quando ia dormir. Olhou para casa por desencargo de consciência e fechou a porta.
Desceu os degraus, nem os reparou, quase tropeçou por desleixo, segurou-se ao corrimão. Esbravejou, recompôs-se e entrou no carro e foi-se.
Meia hora depois, sua mãe se levanta. Vê migalhas aos pêlos do cachorro, sorri, já sabe que seu filho deu o pão outra vez ao cão.
Vai à mesa, recolhe a xícara e o jornal, arruma a mesa, faz duas torradas, suco, um pouco mais de café, deixou a mesa posta.
Levou o cachorro para o quintal, colocou a ração que o cão detesta, mas tem que comer, à vasilha. Vai ver o pão adormecido é tão mais saboroso que aquela coisa marrom que o cão fique com nojo da coisa marrom só de ver. O enjôo de um é o tesouro do outro.
Quinze minutos depois seu marido acorda, senta-se a mesa, dá a ela um afago e apanha o jornal sem tocar a comida, da forma como ela detesta, pois, segundo ela, o jornal é sujo e comer com mãos sujas de jornal é nojento. Ele acha isso uma bobagem. Já foi uma dificuldade convencê-lo a lavar as mãos antes de comer, diga-se então não ler o jornal a mesa, sobre suas tenras palavras, do alto de seus sessenta e oito anos, isso é tudo uma viadagem.
O pai é uma figura interessante. Machista deveras, militar da reserva, endoidou quando o filho cogitou ser vegetariano, para ele, essa história de comer apenas folhas é coisa de maricas. Só aceitou a idéia de o filho ter tal prática quando soube que era proeza do rapaz para arrastar asas a uma bela guria.
O jovem era mulherengo. Era. Depois que se enveredou em certos lençóis e acabou se traindo pelo apego, descobriu o que é sofrer nas mãos de uma mulher. Depois disso desistiu um pouco. Encheu a cara umas duas vezes, mas não conseguiu olhar pra mulher alguma, só queria esquecê-la.
Leu todo o jornal, xingou o presidente até a sétima geração, isso porque lhe faltaram termos, leu sobre o próximo jogo do seu Flamengo, que apesar de estar aos trancos e barrancos, é o seu Flamengo.
Largou o jornal sobre a mesa, pegou um copo de suco, um pedaço de bolo e um pão; foi para a sala assistir tevê. Assistia a tevê e a criticava, falava da pouca vergonha, da safadeza e das bobagens ditas. Odiava, mas assistia, odiava, mas sem ela, viver não conseguiria, pois todo dia são os mesmo programas, as mesmas birras, as mesmas coisas. E sem essas coisas, seu dia vazio ficaria
A senhora segue limpando o domicílio, seguindo a rotina, arruma e limpa os quartos, a sala, cozinha, banheiros, lava as roupas, vive em função da casa. Passam-se os dias, passa-se a vida e ela continua ajeitando a almofada na sala.
O rapaz logo chega ao trabalho, escritório chato, cheio de papéis pra lá e pra cá, por todos os cantos é papelada, burocracia; é forma que encontramos de organizar o tumulto de nossas vidas, uma forma bela de construir a desconstrução, desordem corrigida pelo acaso que muda nossas vidas.
Trabalha, trabalha e trabalha, labuta e cai o suor. Tudo para passar e esquecer a insignificância daquilo que fazia, carimbar papel. Lia as baboseiras escritas por advogados que defendiam as picuinhas dos outros, seu dia era apenas ler e carimbar, carimbar e ler.
Seus colegas tiravam-lhe sarro. Nenhum deles lia nada, olhavam por cima, só liam o que acham engraçado para comentar na salinha do café. Conversavam das bobagens alheias, de como a nova secretária do dono do escritório é gostosa, que o jogo de quarta-feira foi horrível, marcam um churrasco no domingo, que nunca se realiza, combinam de tomar algo depois do trabalho, que sempre acontece.
Cinco horas, horário sagrado, intocável, apenas infringido quando o chefe ameaça com horas-extras, as pastas pretas com papelada chata, tão odiadas.
Logo o trabalho acaba e todos vão matar o cansaço na mesa do bar. Música, alegria, bebida, conversa vaga em todos os cantos, garçonete com uma minúscula minissaia, desafrouxadas gravatas, paletó no carro, sem os sapatos do dia inteiro, roda de samba, cantoria, alivio.
Pegou suas chaves e saiu. A rua vazia, tímida. O rapaz morava longe, mesmo quando o tráfego ajudava, a casa demorava a chegar. Por um acaso foi trocar seu cd, abaixou-se, passou ao sinal vermelho e uma jovem atropelou.
Saiu do carro, desesperado, desarrumado, desajeitado, trocando os passos, olhou-a como se fosse à última, admirou-a de ponta a ponta, até que abriu seus olhos e disse “Babaca”.
terça-feira, 8 de abril de 2008
Leve Crônica de Aspargos
Você se perde, vê um mundo psicodélico e assustador, vê-se só, numa situação constrangedora, sente-se humilhado, vê que todos apontam e riem de você, vê as pessoas que ama indo embora, vê seus sonhos ruindo, vê um mundo horrível do lado de fora da janela. Tem medo, tem que se esconder embaixo do cobertor, entra em desespero, sente na pele o clamor daquilo que mais teme sorrindo defronte ao seu nariz.
Até que passa, você olha para os lados e vê; sorri e outra vez sobrevive, segue, progride como outro alguém diferente do que era antes. Mas, mesmo assim, ainda é você.
Olha para o canto e vê o gato passar, ele se espreguiça, roça a parede da poltrona, olha pros lados e finge um miado, mas não, foi apenas um leve bocejo, até o gato está cansado!
‘Eu estaria lá por você, mas eu estou muito cansado para me levantar da poltrona macia e desligar a tevê! Isto aqui está bom demais!’
Eu poderia me envolver novamente, poderia beijá-la, poderia amá-la mais do que amei todas as outras, eu poderia até morrer por você se fosse preciso, mas não, eu prefiro jogar tudo isso fora e jogar um pouco mais de play station, pegar umas bolachas no pote e engordar mais uns dois quilos.
Eu poderia ir atrás de você, mas eu prefiro me esconder aqui em casa, atrás do enfeite da mesinha ou talvez em baixo da escrivaninha, quem sabe em qualquer outro lugar da sala O que eu não posso é admitir para mim mesmo que eu gostaria é de me esconder em seus braços.
Sou um medroso, um palhaço, tenho medo de admitir a mim mesmo o sentimento! Que homem logrado! Parece mais um cão correndo atrás do rabo... E este nunca alcança, caí ao chão e não compreender por quê! Tapado!
Enganado por quem, cara pálida? Conta-me o segredo do meu temor, porque quando eu olho em seus olhos me tremem as pernas, lacrimejam os olhos, suam as mãos, o olhar se perde... Não tenho forças para olhar em seus olhos, seu perfume me desequilibra e eu sinto que não estou em lugar nenhum.
Báh! Mais uma vez apaixonado? Não, não o posso! Irei sofrer incontrolavelmente, irei olhar o sol poente e perguntar por qual motivo ele se vai e me deixará só frente a ela. Por quê? O vento sopra e levanta as folhas marrons já mortas, ele ventila as cinzas do dia, leva embora o perfume das flores diurnas, leva a tristeza de um ciclo sem o objeto de desejo e deixa o sonho daquele beijo, banhado ao pôr-do-sol de iludir-me na divagação vã. E lá se vai mais uma tarde.
Talvez o salivar da minha boca seja o sinal que o sabor do veneno já está adaptado junto aos meus aminoácidos. Talvez o fato d´eu sentir mais sede dos seus lábios que da própria água já signifique alguma coisa, mas eu não sei, sou só um qualquer jogando palavras cruzadas. Qual o nome da Primeira Deusa Grega com quatro letras?
Verdades, mentiras, todas sendo lavadas na mesma vasilha, serão separadas como feijão, mas infelizmente nossa justiça é cega, a verdade vai para o lixo, a mentira vai para panela, e depois não entendemos porque o feijão está tão ruim e por que o seu sobrinho quebrou dois dentes.
Eu gosto de olhá-la de longe. Mesmo que me sinta tentado em me aproximar, mas sei lá, é tão confortável ficar aqui admirando, depois reclamando, questionando o céu do por que d´eu nunca ter você aqui, será que você me diz?
Provavelmente não vá precisar, pois eu sei, só não consigo admitir que estou tão acomodado com o platonismo que talvez amar assim seja automático; deixar o amor escapar sem se realizar seja o que eu posso fazer para não permitir que meu sentimento ultrapasse a idealização, para não tirar de você o meu estigma de perfeição.
Ás vezes penso em você como um anjo, ás vezes penso em você como uma flor, mas descobri que faltou pensar em você como você, faltou lhe ver como ser humano, faltou eu tirá-la a perfeição e tratá-la como mulher e ao invés de adular a todas as qualidades, faltou amar seus defeitos.
Gosto de olhar para o pôr-do-sol. É uma pena que mal possa vê-lo com tantos prédios ao redor, perdi o horizonte, o mundo me separa do belo, o concreto, o moderno, comprou-me com o conforto e eu me vendi pela facilidade, agora corro atrás da comodidade, corro para subir sobre quem estiver vacilando abaixo.
Você poderia me dizer, eu poderia ouvir, mas estamos muito ocupados com coisas mais importantes, preferimo-nos a todo esse mundo doente, prefiro ficar perdido em seus lábios, enroscado em seus braços a discutir política ou as mazelas que haveremos de enfrentar. Visto em seus olhos há um mundo muito mais bonito, visto em seus olhos eu tenho um motivo para ficar aqui sentado por horas e horas, sentindo seu perfume, tocando sua pele, deitar ao chão, sobre tapete bege.
Ontem derrubei o pote de aspargos, vi mil desenhos se formarem ao chão. Parecia criança deitada no gramado da praça olhando as nuvens para ver com que se pareciam. Com alguns aspargos escrevi seu nome. Logo pensei quão bobo eu era. Tolo, apaixonado, um ato infeliz. O mais infantil dos homens praticava um ato nada mais que ridículo. Logo pensei, quem gostaria de ter seu nome escrito com aspargos?
A todo instante um sonho morre, a cada instante se perde uma oportunidade, a cada olhar pode-se descobrir um pouco que há de gente na gente. Mas o relógio corre, a vida acelera a maratona, seguimos no ritmo da degola, e esquecemos os aspargos no pote quando deveríamos joga-los ao chão, rasgarmos nosso pedestal e ser intensos pelo puro simples ato de cada dia estarmos vivos, ainda.
quinta-feira, 27 de março de 2008
Menino sujo
Dedos finos, sujos, cobertos por uma camada escura de suor ressecado, poeira e terra. Cabelos despenteados, olhos baixos, sempre ao chão, intimidado pela veste bem passada e limpa do rapaz sentado que empunha um saco de papelão.
Sua voz é tremula, seus passos são tímidos, demonstra um forte sentimento de humilhação, como se sua alma tivesse sido pisoteada por uma manada de mais de um milhão de paulistanos que utilizaram aqueles trens neste dia de domingo.
No desespero de seu corpo inchado, mutilado, repleto de hematomas tão evidentes por suas roupas – trapos que expõe ainda mais a violência que seu corpo sofre –, contrapõe-se a propaganda de refrigerante no painel da estação do metrô Santa Cruz.
Inclina levemente seu rosto, expõe sua face ferida, os calombos de seus rostos mostram perfeitamente o formato do punho cerrado de seu padrasto. Sente vergonha.
Sua mão treme, a humilhação é ainda maior por ter que pedir. Ele pede, já que não consegue mais implorar. Não pode mais fazê-lo. Não depois de tanto tê-lo feito ontem de madrugada, quando encontrado havia sido e gentilmente advertido fora com pontapés e socos.
A voz balança a cada sílaba. Moço, me dá um trocado? Seus olhos não saem do pacote de papelão com o ‘m’ grande e amarelo.
É terrível ouvir um terrível não. Sua cabeça – que outrora era cabisbaixa – agora estava praticamente a se esconder em si mesmo.
Ele não sabe se me odeia, se quer voar em meu pescoço e revidar cada golpe que sofrerá por voltar sem os centavos que o neguei, não sabe se procura um buraco para se enterrar, não sabe se quer ficar ou se quer sumir.
Quando virava de lado, vê a mão se direcionar em seu ombro. Espera! Eu não disse que não daria nada. Dali, vê sacar-se um saco de batatas e estas entregues são em suas mãos.
Sem entender, pega o saco, apanha algumas batatas e as devora, e devagar segue até um banco e senta. A cada batata, uma lágrima.
Era apenas um menino sujo, faminto, ferido, humilhado, rendido, sozinho, resignado. Pede para não apanhar. Apanha para pedir e acaba sempre por ganhar uma nova marca para em seu corpo lembrar que não deve pedir. Deve é implorar, pois foi a vida que lhe deram aqui.
domingo, 16 de março de 2008
O circo, o picadeiro e os palhaços
E cada semana um espetáculo diferente! É precatório, irregularidades em privatizações, sanguessugas, mensalão, ONGs, compra de votos para alterar a constituição. A bola da vez é o cartão.
Neste picadeiro, quem se apresenta não é o autor do espetáculo. Os palhaços, aqui, ficam todos na platéia, sentados, inertes, esperando a próxima capa das revistas semanais, esperando que alguém faça alguma coisa.
Por falar em coisa, que coisa estrondosa esta a do cartão, não? Na fatura, até tapioca consta e quem paga é a nação. Afinal, comprar roupas, alugar carros de luxo e comer uma tapioca – já que ninguém é de ferro – são gastos essenciais para a nação.
Já que somos um circo bem organizado, um circo seguro, um circo sem analfabetismo, um circo que todas as crianças têm acesso a educação de qualidade, um circo sem preconceito, onde o judeu anda de mãos dadas com o árabe, com o japonês e com o negro, num circo onde tudo é paz, usar o cartãozinho aqui, ali ou quem sabe fazer um saque, qual é o problema? É sem maldade, não vai faltar em nenhum outro lugar!
E o que fazer quando são nossos próprios artistas que dizem se o trabalho é direito ou não? Não somos nós que decidimos se é de aplauso ou apupo, a nós resta ficar sentados, anestesiados assistindo a todo espetáculo repetitivo.
Muda apenas o slogan; em si, o cerne do show é o mesmo. É a comédia da vida privada no picadeiro público. Calhou dessa vez de a patacoada ser dos dois grandes lados.
A grande discussão do cartão – que acontece nas instâncias parlamentares – é tão relevante quanto o que seria mais pesado, um quilograma de chumbo ou um quilograma grama de algodão. É o mágico dizendo que o domador gastou duzentos mil em uma Ferrari e o domador dizendo que o mágico gastou duzentos mim em dez Corsas. Sempre fico na dúvida, algodão ou chumbo?
Em um circo que prometeu transparência, vemos gastos sigilosos, assistimos a uma disputa patética de “quem desviou menos”. São dedos apontados uns para os outros, são acusações disformes de quem não tem moral para falar de si mesmo, é o espetáculo da grande ironia dissimulada, da nossa querida tenra hipocrisia.
Mas, apesar dos pesares, o nosso circo segue em frente, cada vez melhor. Nunca antes na história desse picadeiro foram denunciados tantos trapezistas desequilibrados! Nunca antes tantos erros e tantas falhas do espetáculo foram notados! Ainda bem! Sinto-me muito mais seguro ao saber que hoje o nosso grande patrono sabe das coisas que acontecem, já que o anterior escondia por baixo do tapete e, até pouco tempo atrás, o atual sabia de nada e de nada sabia.
Nesse circo é tudo alegria, é tudo festa, é tudo pago no cartão. É quem paga a fatura? Claro que os 180 milhões de palhaços, devidamente sentados estarão também muito felizes com tão belo espetáculo, pagando a entrada e sustentando este picadeiro. O circo quem faz são os palhaços.
Estourou o limite do cartão? É culpa da insaciável vontade de gastar do mágico? Não! A culpa é de quem ostenta o nariz vermelho e está bem acomodado. Quem deu o cartão corporativo pro mágico não foi o elefante, mas sim esses gênios, esses queridos palhaços. Este é o nosso show. Este é do picadeiro o espetáculo!
terça-feira, 11 de março de 2008
Pé de árvore
- Faz o que da vida cidadão?
Eu disse:
- Estudo, Trabalho, Escrevo e Sonho.
Perplexo, olhou de lado e fechou a cara com indagação:
- Sonha?
- Sim, sonho.
- Sonha com o que?
- Sonho com a vida. Sonho com os amores. Sonho com um sorriso. Sonho com um bom sonho, eu sonho.
- Mas todo mundo sonha.
- Nem todos. Alguns podem até ter um sonho. Mas eu sonho.
- Como?
- Não é objetivo, não é delírio, nem saudosismo, não é ilusão, não é indagação, é possibilidade, é olhar ao horizonte e ver a vida em todos os lugares, é mais do que se pode apalpar com as mãos, bem mais distante d´onde seus olhos alcançam, é simplesmente o brisar de uma criança. Não tenho um ponto lá ao longe, eu tenho representação intensa e presente, é real, é presente.
- Não faz sentido.
- E que sonho faz sentido?
- Os meus fazem.
- Parabéns.
- Pelo que?
- Por ser um chato.
- Chato?
- Onde lá se viu sonho exato?
- Ah Vai!
E assim se finda o diálogo, cada qual se vira para um lado e bufa, eu com meu sonho e insensatez e ele com a exatidão e aquilo que eu não sei. Também não faço a menor questão de o saber, apenas me limito a seguir esse caminho sem trilho, apenas sigo e vou até aonde a aspiração me levar, eu vou seguir, vou sem me preocupar, vou caminhando, vou a sonhar, deixo que seja o que será, dando ao acaso o conduzir da rima, fazendo de cada inesperado um sonho, ou, ao menos, possibilidade de um bom momento da vida.
quinta-feira, 6 de março de 2008
O Coração e o Ingrato
- Apesar de minhas rosas, por outros braços fora embora, todos os meus versos, tudo o que eu soletro, todo o meu coro, nada, nada, nada fez você acreditar que era eu...
- Amei-a com toda intensidade, entreguei-a o meu coração, é a mais pura verdade. Eu tive tudo sem saber, mas por que insistir, se quanto mais eu persisto, mais eu me firo?
- Acalma! Se os erros foram no intuito de encontrar a verdade, qual é a maldade? Depois de ter vivido tudo aquilo, poderia ter ido aos confins, mas não, eu só fui até ali! Relaxa! Sou um coração dispendioso, mas sou amável.
- Se me atiro sobre lábio qualquer não quer dizer que não há sentimento. Na verdade, é apenas passageiro, é sombra sem parcela de responsabilidade. Deixa ser como será!
- Mas o que será, oh seu malévolo revoltoso que se atira ao revés sem mesmo me consultar, se apaixona e derrama sobre mim bálsamo envenenado, entorpecendo-me em delírios, beijos de saudade! Oh, sossega-te e não me atormentes mais!
- Veja bem meu caro, sem novos amores, qual é o sabor de continuar nesse cintilar ingrato? Se não vê o que sinto quando me atiro, não é culpa minha, não é por qualquer coisa que dispenso a vertigem de um novo amor... Ah! Seus abraços, seus sorrisos, seus beijos e seus traços! Não se limite a pequenos sapatos, se realmente o que calças é quarenta e quatro. A pior tirania Humana é calçar sapatos apertados. Liberte-se desse mal, deixe-se viver, se atire, sinta, larga a mão desse esconder ingrato!
- Coração, boêmio inexaurível, deixe de ser fecundo em atrocidades, suas cicatrizes já me custam muitas verdades, explique a paz que não há, explique essa dor que não quer cessar! Canta-me por que da saudade que não acaba mais!
- Meu prezado, é tão simples, tão fácil, só você não vê que aquela bela dama, da qual você menospreza o meu parecer, conquistou você com leves beijos, jeito extrovertido, levou-me aos maiores delírios; e nesse compasso você seguiu comigo e, hoje, não há mais solução: ou se entrega, ou se entrega meu caro turrão!
- Não acredito em tais palavras, não será você a me ensinar aquilo que deveria ser. É um desiludido, perdido em tardes de domingo, mal sabe o que faz! É um vagal por completo, tenta iludir-me nesse momento incerto em que não sei o que fazer. Pensa que sou o quê? Acha mesmo que estou eu apaixonado? Acha que eu sou o que meu caro? Não me entreguei com tal facilidade, não serei eu o primeiro a cair sobre essa suas falsas-verdades, deixa-me em paz e leva contigo o que não me satisfaz.
- Veja, o sentimento existe, mesmo que você não acredite. Resista o quanto puder, pois o tempo o dirá, a verdade, qual é. Se você não quer se atirar nesse amor, a derrota será sua, a dor será minha, as lágrimas e as conseqüências por você serão todas sentidas. Apesar de tudo, vê se me escuta da próxima vez, pois ela já se foi e você ficou sem ao menos ganhar dela um adeus. Comporte-se e quem sabe um dia eu encontro outro amor vertiginoso e incerto, porém terno, para que um dia o coração não seja o seu amigo indigesto!
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Duelo de paradigmas
Entra-se em um debate ideológico, social e arriscaria dizer inconsciente, quem é a melhor escolha para comandar a nação mais poderosa do planeta; um homem negro ou uma mulher branca?
Ambas as opções chocam-se com paradigmas. Estaria o conservador eleitor estadunidense mais preparado para ser regido por um negro? No país da Ku Klux Klan? Ou então o machismo inato na cultura protestante que é entrelaçada com a mentalidade deste mesmo eleitor teria sido superada para ver uma mulher no comando?
Caso a vitória seja Democrata nas próximas eleições, as possibilidades são intrigantes.
Caso o próximo presidente seja Barack Obama, será a primeira oportunidade que uma minoria ascenderá ao poder máximo no país, mesmo que Obama seja mestiço, tem uma representatividade muito grande. É uma nova linha de pensamento do partido Democrata, é visto como um político inovador, moderno. A vitória dele teria o mesmo peso história que a eleição de Lula no Brasil, onde a representação das classes menos favorecidas ascenderia ao poder máximo da nação.
Já Hillary Clinton representaria a primeira mulher a comandar a nação. Mais do que testa-de-ferro do esposo como acontece na Argentina, Hillary teria luz própria e seria a máxima representação da revolução feminista e a efetiva integração das mulheres ao sistema político.
De não ter direito ao voto à presidente da nação. Esta frase pode servir tanto para negros como mulheres.
Confesso ter mais simpatia por Obama, não por ser ele um homem, tampouco negro, mas sim pela antipatia que guardo por Hillary Clinton, onde creio ser apenas mais do mesmo politicamente. Gosto de mudanças e Obama parece representar mudanças políticas mais drásticas.
No plano ideológico, os dois têm a mesma representatividade. Seja lá qual for a decisão, essas eleições serão especiais.
